Último Passe 

2017-05-26
Competição real passa pelo limite aos empréstimos

Salvador Agra, Rui Correia, Hamzaoui, Wyllian, Ailton, Carlinhos ou Bruno Gomes. Todos estes nomes têm sido associados nos últimos dias ao Benfica e, acreditem, não se trata de especulação dos jornais interessados em vender papel – até porque as coisas já não funcionam assim na comunicação social. O que está aqui em causa são práticas empresariais, que podem vir a gerar maiores diferenças entre clubes participantes no mesmo campeonato, exatamente o contrário daquilo que a Liga devia querer. Caminhamos para uma situação próxima da que vivíamos nos anos 70, com uma diferença: é que nessa altura os clubes grandes contratavam com a ideia de vir a aproveitar os jogadores. Hoje já não é bem assim. Daí que se torne cada vez mais premente encontrar um regulamento justo para os empréstimos.

Há 30 ou 40 anos, as equipas de reservas do Benfica, do Sporting e do FC Porto seriam mais capazes de bater o pé aos respetivos onzes de gala do que qualquer outro participante do campeonato. Vejamos, por exemplo, os campeões pelo Benfica em 1974/75: além dos onze mais utilizados havia ainda Bento, Malta da Silva, Eurico, Bastos Lopes, Adolfo, Jaime Graça, Shéu, Eusébio, Artur Jorge ou Jordão. Todos internacionais A. Mas podemos andar um ano para trás e olhar para o plantel do Sporting que foi campeão em 1973/74, onde além dos titulares estavam ainda Botelho, José Carlos, Laranjeira, Baltasar, Tomé ou Fraguito. Ou para o FC Porto que interrompeu o longo jejum de títulos do clube em 1977/78, onde Pedroto tinha, além dos mais rodados, Torres, Teixeira, Taí, Celso, Seninho ou o paraguaio González. Na altura, com um recurso muito mais limitado do que hoje ao mercado internacional, os grandes digladiavam-se entre eles pela assinatura de qualquer jogador que se destacasse ao serviço dos outros competidores. Contratavam para impedir que os possíveis craques viessem a reforçar o rival, é verdade, mas integravam esses jogadores nos seus planteis e eles acabavam por ter uma oportunidade de chegar à equipa principal.

Hoje não é assim. Hoje contrata-se por mera estratégia empresarial. Ou alguém acha que os nomes acima citados virão algum dia a fazer parte do plantel do Benfica? O Benfica – e os outros também, ainda que com menor poderio financeiro – contrata para ficar com partes de passe, valorizar e receber mais-valias em futuros negócios, feitos em parceria com terceiras partes, que podem ser fundos obscuros ou empresários perfeitamente identificados. E se isso já não é bom, se não for claro, torna-se ainda mais negativo quando se percebe que vem desvirtuar a competição. Legalmente, um clube pode ter três emprestados a cada clube que participe na mesma divisão, sendo que estes não estão autorizados a defrontar o clube detentor do passe. É um regulamento melhor do que a ausência de regras em que se vivia anteriormente, quando imperavam a indefinição e a suspeição permanentes, mas continua a ser um mau regulamento. Porque no limite – e assumindo que nenhum dos grandes vai empestar jogadores aos outros grandes – um clube pode emprestar três jogadores aos restantes 15 participantes na Liga (45 no total, portanto) e defrontar esses clubes amputados de três peças base. É apenas uma questão de dinheiro.

Sei que estamos longe da realidade do híper-competitivo desporto norte-americano, onde quem ganha tem limites na capacidade para se reforçar, de forma a aumentar o equilíbrio nos anos seguintes. Nem creio que um exagero desses seja possível ou sequer desejável. Ainda assim, acho fundamental que o regulador intervenha em dois planos. Primeiro, os empréstimos têm de ser drasticamente reduzidos em número e limitados a jogadores numa determinada fase da carreira. Faz sentido um clube emprestar um jogador sub23, que esteve na equipa B e precisa de subir de patamar competitivo, mas não faz sentido que contrate jogadores de 25 ou 26 anos para os emprestar a clubes rivais. E faz sentido que se limite mais o total de jogadores que um clube pode emprestar para a mesma competição – mesmo que isto pudesse depois ser driblável com rescisões, assinatura de novos contratos e lesões misteriosas antes do jogo contra o grande ao qual o jogador esteve ligado, essa seria uma situação que dificilmente passaria despercebida e que tenderia a desaparecer.

É claro que uma limitação destas teria duas consequências. Os salários dos jogadores de classe média baixariam, porque os grandes sairiam do lote de eventuais ofertantes, e os clubes de menor dimensão teriam, ainda assim, de orçamentar mais gastos, para pagarem eles mesmos os seus plantéis em vez de viverem à sombra dos empréstimos dos grandes. E aí entre o segundo plano de intervenção que o regulador precisaria de assumir: a distribuição mais racional da receita entre todos os clubes. Sem isso, nada muda.