Último Passe 

2017-05-15
A aprendizagem de Nuno e do FC Porto

Nuno Espírito Santo esperou que a frieza da matemática consumasse aquilo de que muitos já esperavam – o tetracampeonato do Benfica – para deitar a toalha ao ringue e assumir que a sua tarefa redundou num falhanço. Como se a conclusão final dependesse só de resultados. Pelo meio deixou recados a quem o quis ouvir. Que o FC Porto cresceu como equipa – e perante a hecatombe que tinha sido a época passada, não se admitia outra coisa – e que a confiança nele está expressa num contrato que está assinado. São duas conclusões válidas, mas não dizem tudo. E o próprio Nuno terá de mostrar que aprendeu que para montar um FC Porto melhor e capaz de voltar aos títulos não pode mostrar tão pouco no ataque.

Objetivamente, as coisas são simples: o FC Porto tinha sido terceiro, a 15 pontos do campeão, e vai agora ser segundo, a uma distância final que pode variar entre os dois e os oito pontos. Já assegurou que fará pelo menos mais três pontos do que na época passada – tem 76 e a equipa de Lopetegui e depois Peseiro acabou a Liga com 73 – e que marca mais e sofre menos golos. Chegou mais longe na Europa, mas há um ano tinha estado na final da Taça de Portugal, perdida de forma tão inglória como incrível, depois de uma recuperação épica. Não há dúvidas de que este FC Porto foi mais equipa do que o anterior, montado em bases muito mais sólidas, com uma coerência maior, para a qual basta dizer que teve apenas um cérebro, enquanto que o anterior foi pensado por um treinador e passou metade da temporada a ser liderado por outro, que durante boa parte do tempo já tinha percebido que não ia ficar. Tinha-o percebido ele e tinham-no percebido os jogadores, o que é suficiente para matar qualquer liderança que se quer firme.

O FC Porto de Nuno Espírito Santo é uma equipa muito jovem e por isso com bases sustentáveis de crescimento. Mas para tal, já o disse, não pode continuar a ser construída com base em ideias que encaixam melhor num plantel de veteranos. A predileção pela busca dos equilíbrios em detrimento da inspiração casa mal com um plantel cheio de miúdos de sangue na guelra – André Silva, Jota, Oliver, Otávio, Ruben Neves, Rui Pedro e até Corona, Danilo ou Alex Telles estão naquela idade em que os sonhos valem mais do que as certezas e é em nome deles que se movem. Claro que o realismo é fundamental para se chegar aos títulos, mas o elevado total de zeros atacantes – foram doze em 48 jogos, isto é, um em cada quatro – arruinou as aspirações de uma equipa que mostrou solidez para poder aspirar a mais. Em 52 jogos, o ataque do Benfica só não funcionou três vezes, o que demonstra que os encarnados mobilizaram sempre mais gente para chegar ao golo e que por isso foram recompensados com o pote de ouro no final do arco íris.

Por esta altura, Nuno Espírito Santo não terá a certeza de que vai continuar a ser o treinador do FC Porto. O facto de ter trazido para a mesa de conferência de imprensa o contrato assinado é sinal disso mesmo. Pinto da Costa não gosta de desistir das suas ideias à primeira, por vezes nem quando elas são comprovadamente más – o que nem me parece ser o caso. É verdade que são já quatro anos sem nada ganhar, desde a Supertaça de 2013, e que isso pressiona qualquer um. Mas da mesma forma que mostrou que percebeu que Depoitre não servia para o seu plano – e a equipa melhorou com a integração de Soares, em Janeiro – Nuno tem de demonstrar que já entendeu que o ataque portista não morre ali e que para ser campeão no futebol de hoje em Portugal tem de meter mais gente em zonas de definição, mesmo que isso implique povoar menos atrás. A necessidade de recuperação do protagonismo de André Silva, o mais promissor dos jovens dragões, não quer dizer que o FC Porto dependa de individualidades. Quer somente dizer que não pode desperdiça-las, sobretudo quando são quem melhor defende a ideia que a equipa precisa para crescer.