Último Passe 

2017-05-10
O que querem Jesus e Bruno de Carvalho

Afinal de contas, o que está em causa no imbróglio Bruno de Carvalho-Jorge Jesus em que o Sporting estará a meter-se? Nada, dirá a via de informação oficial. Tudo, argumentarão os que fazem vida a saber tudo, por vezes até mais do que a própria realidade. Eu ficaria pelo meio e diria que podem estar em causa duas coisas: a visão para o futebol do clube, que facilmente pode ser confundida por uma luta pelo poder, e a otimização da própria posição face aos resultados.

A primeira é mais fácil de explicar. Jesus quererá recuperar a influência total que tinha na política de contratações do Sporting, mas o fracasso desta época servirá que nem uma luva aos que defendem que o treinador deve trabalhar com os jogadores que lhe dão e ponto final. A visão de Jesus, que o treinador defendeu há poucas semanas no congresso “Future of Football”, organizado pelo clube, é simples: é ele que sabe de futebol, logo deve ser ele a definir quem fica, quem sai, quem vem e quem não vem. A mim, desde que temperada pela realidade da política desportiva do clube, parece-me a correta, já o tinha defendido antes aqui. A visão dos que se opõem a esta visão, sustentada nos fracassos que representaram as aquisições de Elias, André, Markovic ou Castaignos, é a de que o treinador não tem nada que mandar nisto e que se o clube quer voltar a fazer uma equipa com miúdos da formação ele tem de a fazer e de bater a bolinha baixa. A questão à qual estes não sabem responder é a seguinte: se não for o treinador, quem toma decisões acerca da composição do plantel? São os que nos anos anteriores à chegada de Jesus aprovaram as aquisições de Gerson Magrão, Maurício, Chikabala, Rabia, Sarr, Rosell, Gauld ou Tanaka?

Esta é, portanto, uma não-questão. Aquisições acertam-se e falham-se e está por provar que num clube haja alguém mais competente para as decidir do que o treinador, que é quem tem a ideia de jogo na cabeça e quem sabe o que quer fazer com este ou aquele jogador. O que é aqui fundamental é adotar-se uma política desportiva – na qual se inclui a definição de objetivos desportivos, a forma lata de a eles chegar, o futebol que se quer ver, a relação entre a integração de jovens e a presença de consagrados que os contextualizem – e tomar decisões de acordo com ela. E é aqui que pode haver divergências verdadeiramente importantes. Porque se de um lado se quer mais formação e do outro se quer menos formação, não há conciliação possível. A questão é que se isso é verdade, então não se vê como podem Bruno de Carvalho e Jesus estar a trabalhar juntos há dois anos. Só se um dos dois tivesse posto em stand-by as suas ideias só pelo prazer da união. E isso não parece uma coisa muito adulta de se fazer.

Aqui chegados, se de repente Bruno de Carvalho concluiu que é um desperdício pagar o que paga por um treinador se isso não lhe garante o título de campeão, tem de tentar pôr termo à parceria, mas de caminho tem de assumir o erro na primeira pessoa, porque toda a gente sabe que nenhum treinador pode garantir um título e foi ele quem tomou a decisão de contratar Jesus. E se de repente Jesus concluiu que não consegue ser campeão com a estrutura meio amadora, meio bipolar que o tem no Sporting e que por isso não sente vontade para continuar, tem mais é que se demitir, mas de caminho tem de assumir o erro na primeira pessoa, porque toda a gente se lembra do que ele disse quando saiu do Benfica e desvalorizou a estrutura que por lá tinha. Como nenhum dos dois deve ter neste momento vontade de o fazer, o melhor que lhes resta é terem juízo e continuarem a trabalhar juntos. Porque o Sporting não tem nada a ganhar em mudar de treinador agora e se há dois anos, com Jorge Mendes a mexer os cordelinhos e o título de campeão no bolso, Jesus não tinha colocação nos maiores clubes da Europa, não é agora que vai lá chegar.