Último Passe 

2017-05-06
Um FC Porto jovem com ideias de veterano

O empate do FC Porto frente ao Marítimo – o quinto nas sete últimas jornadas – veio hipotecar seriamente as hipóteses dos dragões se sagrarem campeões nacionais, mas não teve a ver com o regresso da equipa ao 4x3x3, com um súbito ataque de medo por parte de Nuno Espírito Santo, que terá levado à passagem de André Silva para o banco ou com a titularidade de apenas um extremo claro, permitindo a entrada de um quarto médio a partir da outra ala. O treinador portista defendeu nos Barreiros a proposta que vem defendendo desde o início da época, uma proposta à italiana antiga, que privilegia os equilíbrios, um jogo mais direto e vertical, que raramente envolve muitos homens no ataque, e isso não tem a ver com o sistema ou com os titulares de hoje ou da semana passada. Tem a ver, isso sim, com a ideia de jogo, que não é uma ideia condizente com o futebol ofensivamente avassalador que os adeptos gostariam de ver nesta altura da época ou que o plantel pede.

A verdade é que, empatando na Madeira, o FC Porto vê fugir mais uma oportunidade de colocar pressão em cima do Benfica. E fá-lo logo na semana em que os encarnados têm uma deslocação tão difícil a Vila do Conde, para jogar com o excelente Rio Ave de Luís Castro, equipa que além de jogar bem está a lutar pela vaga europeia que resta com o Marítimo e por isso mesmo precisa dos pontos. Se até aqui o Benfica tinha direito a errar uma vez – podia empatar um dos três jogos que lhe faltavam –, agora viu aumentar essa margem de erro, pois pode até perder um jogo com a certeza de que será na mesma tetracampeão. Os sucessivos soluços resultadistas do FC Porto têm uma dimensão mental e outra estritamente estratégica. Mentalmente, sente-se que esta não é uma equipa forte, apesar das constantes alusões do seu treinador ao “jogar à FC Porto”, na tentativa de recuperar uma identidade de campeão que durante anos foi a maior arma dos dragões. Pode ser por ser jovem, por ter deixado que as justificações com os erros dos árbitros lhe diminuíssem o grau de responsabilidade, mas a verdade é que este plantel do FC Porto tem desperdiçado várias ocasiões soberanas para colocar o pé em cima da garganta do Benfica. A de hoje foi apenas a enésima…

Futebolisticamente é que não há grandes diferenças. Virem agora dizer que o FC Porto tinha de ter entrado nos Barreiros e encostado o Marítimo atrás, com uma demonstração de futebol de ataque avassalador é ligar mais à história do clube do que ao processo de construção da equipa. O FC Porto de Nuno Espírito Santo nunca foi essa equipa. É uma equipa que não aposta nos envolvimentos atacantes, preferindo um jogo mais direto que por um lado dá menos trabalho a construir e por outro não desposiciona tanto os jogadores, precavendo desde logo a transição defensiva que aí vem. Dir-me-ão que o FC Porto é ainda o melhor ataque da Liga e isso é verdade, mas não significa que seja uma equipa de grandes envolvimentos ofensivos. Este FC Porto é uma equipa que ataca a pensar como vai defender a seguir. Sempre o foi, desde o início da Liga, como se perceberá pelas diferenças entre o onze de hoje e o que começou o campeonato, em Vila do Conde – Nuno trocou o castigado Maxi pelo jovem Fonseca, o lesionado Danilo por Ruben Neves, Corona pelo entretanto revigorado Brahimi e André Silva por Soares, num onze com um desenho absolutamente semelhante.

Essa é a ideia de Nuno e não pode pedir-se-lhe que faça a equipa de acordo com ideias que não são as dele nem defender-se que com uma ideia destas não se ganham Ligas. Claro que podem ganhar-se campeonatos com um futebol mais cínico e apostado em equilíbrios. Mas para o fazer é preciso ter o “killing instinct” que geralmente está associado a equipas mais experientes e não a grupos tão jovens como o deste FC Porto. É por isso que Nuno Espírito Santo chega ao fim do desafio em que pode ter deixado as esperanças de ser campeão e diz que a sua equipa não soube matar o jogo. Claro que não soube. As equipas tão jovens como este FC Porto – cinco sub21 e só dois homens acima dos 27 anos nos 14 que jogaram – não podem ter a capacidade de gestão de uma partida que lhes permita jogar assim. Não têm o realismo dos veteranos, mas podem ter a salutar loucura da juventude. Olhem para o Ajax de Peter Bosz, por exemplo, e vejam que futebol ele joga.