Último Passe 

2017-05-04
O video-árbitro como avanço fundamental

Por mais voltas que os profissionais da confusão queiram dar ao assunto, a adoção do video-árbitro em Portugal um ano antes do previsto por iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol é uma excelente notícia. Não vai resolver os problemas relacionados com a arbitragem no futebol português, porque esses, mais do que com a arbitragem propriamente dita, têm a ver com o gritante défice de cultura desportiva de que sofre a maior parte dos agentes envolvidos. Não vai acabar com o erro nem com a discussão e com a polémica, porque a arbitragem é, em si, um exercício de subjetividade. Mas vai ser uma grande ajuda na diminuição dos casos mais gritantes de injustiça, porque fornece um meio extra de diagnóstico a quem, por agora, é forçado a decidir com menos certeza do que a que tem o telespectador confortavelmente sentado na poltrona lá de casa. E pode ser uma porta aberta para que se sigam outros caminhos de modernidade que a estrutura do futebol nacional precisa de assumir.

As objeções vão começar a poluir o espaço mediático em breve, da mesma forma que já poluem as timelines das mais diversas redes sociais. Logo no primeiro dia, já se falou de muita coisa. Que é frequente os árbitros que opinam em painéis de opinião dos diversos meios de comunicação estarem em desacordo. Que as interrupções vão tornar os jogos aborrecidos. Que o erro é o sal e a pimenta do futebol – esta então é de bradar aos céus. Que têm de ser estabelecer as condições exatas nas quais o vídeo-árbitro poderá ser chamado a intervir, para definir o que se faz com jogadas que se sigam a outras que tenham sido interrompidas tardiamente. Que se criará uma confusão enorme sempre que o árbitro quiser inverter uma decisão do árbitro de campo. Que isto vai ser uma confusão porque há campos onde não há condições perfeitas. Ou que não é justo que se aplique no futebol de topo enquanto não estiver a vigorar também nos escalões inferiores – afinal as regras devem ser iguais para todos.

Para todas estas objeções há resposta. Os especialistas divergem porque a arbitragem não é uma ciência exata e do que se trata não é de erradicar o erro, mas sim de criar condições para que ele seja menos frequente. A demora nascida das interrupções não tem de ser aborrecida e – vejam o exemplo do râguebi – pode até ser didática, desde que se dê o passo seguinte, que passa por tornar públicas as explicações dadas pelo árbitro de campo aos jogadores e se distribuam pequenos recetores pelos quais os espectadores possam ouvir o canal de comunicação entre o árbitro de campo e o de regie. Porque a transparência é sempre a melhor política. Depois, é claro que têm de se estabelecer as condições exatas em que a ajuda tecnológica poderá ser utilizada. E aqui creio que o passo que vai ser dado ainda é curto e que podia importar-se uma ideia do ténis, que é a possibilidade de também os capitães de equipa poderem desafiar um determinado número de decisões do árbitro de campo – uma por 45 minutos, por exemplo – que possam ter escapado a um primeiro visionamento do vídeo-árbitro. Por fim, é claro que há campos onde não há condições perfeitas e que esta inovação não estará disponível a não ser na elite, mas nem a vídeo-vigilância nas grandes superfícies comerciais depende da sua existência em botecos de esquina nem o facto de haver cidades onde não chegam as auto-estradas impede o estado de as construir onde isso é possível.

Problemática pode ser, isso sim, a dependência que a Liga vai ter do prestador de servições que fará a transmissão dos jogos. O que acontece, por exemplo, se o canal detentor dos direitos decidir inverter a estratégia que o levou, desde a época em curso, a transmitir em direto todos os jogos da I Liga, o que implica a mobilização de um número razoável de câmaras? A questão, aqui, é a de aproveitar o problema para criar uma oportunidade e passar finalmente todos os direitos para a mão do organizador do campeonato, aproveitando de caminho para proceder à necessária centralização e à distribuição mais equilibrada da receita apurada, de modo a aumentar a competitividade interna e dos nossos clubes no estrangeiro. Mas isso, enfim, já é outra história.