Último Passe 

2017-05-03
A Juventus de Allegri e o renascimento italiano

Há uma coisa que é a ideia de jogo. E depois há outra coisa que é a qualidade dos jogadores. As duas estão intimamente ligadas, ajudam-se ou atrapalham-se, mas são coisas diferentes. A ideia de jogo do Mónaco, “Garibaldiana” como a definiu Allegri pela propensão para o risco, é de uma sedução extraordinária, mas talvez exija jogadores, já não diria com mais qualidade, mas pelo menos com mais qualidade consolidada – a maior parte deles está a chegar esta época à alta roda. Esta Juventus já não tem a ideia de jogo exclusivamente pragmática que tinha com Conte, por exemplo, consegue seduzir e apresenta nota artística – como se viu no primeiro golo de Higuain, por exemplo – mas além de ser uma equipa mais completa e menos dada ao erro, tem mais qualidade.

O trabalho que Massimilano Allegri está a fazer em Turim pode vir a ser seminal na recuperação do futebol italiano, porque a verdade é que apesar de as últimas décadas terem apresentado uns quantos revolucionários a remar contra a maré – Zeman terá sido o pai de todos, da mesma forma que Liedholm foi pai de Eriksson e Sacchi – eles não costumavam ganhar. Allegri pegou na Juventus e fez tudo aquilo que a teoria não recomendava: quando joga com três atrás, joga mesmo com três (e não com cinco) atrás; usa dois alas verdadeiros; não povoa o meio-campo de debulhadoras cuja única missão é destruir (é lá que está Pjanic, por exemplo); e abre o ataque a três avançados verdadeiros, como são Dybala, Higuaín e Mandzukic (mesmo que em nome da ideia de jogo o croata tenha muitas vezes de fechar a esquerda). Fazendo isso tudo, está a ganhar, o que pode vir a ser fundamental num renascimento do futebol italiano, numa mudança de paradigma de certa forma semelhante ao protagonizado pelos alemães na última década, depois de as seleções terem batido no fundo.

Desde o início da fase a eliminar que me pareceu que esta Juventus formava, com o Bayern e o Barcelona, o lote de equipas que podia ter hipótese de travar o Real numa eventual final. O Bayern caiu ante Cristiano Ronaldo e companhia, numa eliminatória disputada e polémica; o Barça falhou o hara-kiri contra o Paris St. Germain, numa noite em que os deuses do futebol falaram catalão, mas acabou por cair aos pés da obra de Allegri. Tudo indica que a final vai ter Real Madrid e Juventus, as duas melhores equipas da competição. A ser assim, é justo e vai ser muito interessante.