Último Passe 

2017-04-26
Treinador ou presidente? Quem deve mandar no campo?

Há dias, forçado a tal pelas notícias acerca do desencontro de opiniões com Quim Machado acerca da melhor forma de escolher um plantel, Rui Pedro Soares, presidente da SAD do Belenenses, veio dar em público aquela que é a versão mais comumente aceite – ainda que tão raramente praticada, porque se as coisas resvalam para o lado da gestão, é sempre a gestão que impõe as leis. Jorge Jesus deu hoje, no congresso “The Future of Football”, organizado pelo Sporting, uma versão mais “futeboleira” da coisa: deve ser o treinador a decidir tendo em conta aquilo que no fim mais importa, que é a capacidade de atingir os resultados desportivos. Mas o paraíso está a meio. Como se prova na época feita pelo Sp. Braga entre José Peseiro, Jorge Simão e Abel Silva.

Primeiro, o Belenenses. Quim Machado justificou a não renovação – que depois veio a resultar na sua substituição por Domingos Paciência – com a intransigência em relação a duas cláusulas que a SAD azul queria impor no contrato. “Uma era que o treinador praticamente não tinha interferência nas contratações e outra em que a SAD teria o direito de retirar jogadores de uma convocatória”, revelou o treinador que acabou por sair do Restelo. Sem mencionar o segundo caso, Rui Pedro Soares veio dar a sua visão acerca do assunto na globalidade: o treinador pode dizer quem quer, mas quem escolhe quem contrata é a SAD. Não é uma coisa assim tão idiota: há mesmo muito quem defenda que é assim que deve ser, porque os treinadores vão e vêm e os clubes não podem ficar reféns das escolhas feitas por, como costuma dizer-se, “meros funcionários”.

Não me parece, de qualquer modo, a coisa mais inteligente do Mundo, também. Porque se há ali quem de facto saiba de futebol e do futebol que quer pôr a equipa a jogar é o treinador. Foi um pouco isso que disse hoje Jorge Jesus em Alvalade, ao defender “três fatores fundamentais” para que seja o treinador quem escolhe as contratações: “sistema tático, modelo de jogo e modelo de jogador”. A questão é que se a predominância da gestão não satisfaz do ponto de vista dos resultados em campo, o predomínio do técnico pode falhar do ponto de vista da gestão. No Sporting desta época, por exemplo, não foi seguida uma política de perfis adequada, visando a substituição dos jogadores vendidos – Slimani, Téo e João Mário – por elementos que dessem à equipa as mesmas valências. Bas Dost move-se ao contrário de Slimani, Alan Ruiz levou muito tempo a calçar as botas de Téo e Gelson dá soluções individuais e brilho no um para um onde João Mário dava enquadramento coletivo e controlo. É melhor? É pior? É sobretudo diferente e levou tempo a acertar.

Uma equipa funciona tanto melhor quanto houver concertação entre todos os decisores ou de preferência uma boa compreensão global de quem está no plano superior das escolhas (todas, incluindo a do treinador) e que deve ser competente tanto do ponto de vista da gestão como do futebol. Excelente exemplo disso mesmo foi a deriva do Sp. Braga entre José Peseiro e Jorge Simão, dois treinadores que não podiam ser mais opostos em termos de modelo de jogo defendido. Peseiro é um homem da mobilidade atacante, dos desequilíbrios ofensivos, do 4x4x2 puro, cujas equipas defendem a pensar como vão atacar a seguir. Toda as suas equipas jogaram assim. Simão é um homem do rigor a meio-campo, dos equilíbrios defensivos, do 4x2x3x1 com dois médios sempre posicionais, cujas equipas atacam a pensar como vão defender a seguir. Todas as suas equipas jogaram assim. O plantel bracarense teve grandes mudanças a meio e, como treinadores competentes que são, cada um tentou construir a equipa à sua imagem o melhor que pôde e soube. Mas quem decidiu começar a época com um e acabá-la com outro estava a pensar exatamente no quê?