Último Passe 

2017-04-25
Isto não vai lá com cimeiras

Pedro Proença assumiu hoje uma posição pública de condenação do estado atual do futebol português, em artigo de opinião assinado no jornal A Bola. O presidente da Liga disparou acusações certeiras em todas as direções, falou em “comportamentos bélicos e de guerrilha”, pediu “bom senso e fair-play” e rematou sugerindo a realização de “cimeira ao mais alto nível”. Ora esse é o tipo de coisa que nunca vai acontecer – nem faz falta. Proença gostaria de aparecer como pacificador, como responsável pela união dos irmãos desavindos, não só porque isso seria bom para o futebol mas também porque daí retiraria algum crédito para ele e para a Liga a que preside. A questão é que estes irmãos não querem ser reunidos. Isto não vai lá com cimeiras – é preciso agir.

A leitura da situação, o presidente da Liga fê-la bem. Há falta de bom-senso, há falta de fair-play, há excesso de vontade de ganhar a qualquer preço. O problema é que o que aqui nos trouxe continua a estar na ordem do dia. Todos os anos, há apenas um campeão e três clubes capazes de apostar a vida para o serem. E esses três clubes já entenderam que no faroeste em que se transformou o futebol em Portugal vale de facto tudo. Luís Filipe Vieira teve razão quando apontou excesso de demagogia e populismo a Bruno de Carvalho. Este, por sua vez, também teve razão quando mencionou o terrorismo comunicacional do Benfica. O problema é que ambos podiam, no caso, estar a referir-se à atuação dos seus clubes também. Com as mesmas palavras. Para já, os três candidatos ao título estão concentrados na necessidade de ganhar e foi para isso que delinearam estratégias comunicacionais que passam pela destruição moral dos opositores. O Sporting fá-lo através do presidente, às vezes do diretor de comunicação; o Benfica fá-lo através dos seus comentadores televisivos e por vezes do próprio presidente; o FC Porto começou recentemente a fazê-lo através do diretor de comunicação, depois de o fazer por intermédio do Dragões Diário, já que o presidente anda mais arredado destes palcos do que no tempo em que assumia a guerrilha em nome pessoal e de peito aberto.

Se isto resulta ou não, depende. Resulta para quem ganhar o campeonato. E não é de um dia para o outro – nem muito menos numa cimeira pública e de perfil elevado – que se lhes explica, ao que ganhar mas também aos que perderem, que todos juntos estão a transformar o futebol português numa lixeira e que o campeão da lixeira será isso mesmo também: lixo. O que pode então fazer a Liga? Não pode controlar os meios de comunicação – ainda que isso devesse ser mais bem feito por uma ERC que tem pecado por total e absoluta ausência de regulação. Não pode de repente juntar os três clubes à mesma mesa, porque eles não querem estar sequer na mesma bancada. A única saída da crise, já o disse, passa pela ação. Não dá as mesmas chances de fotografia que uma cimeira de presidentes sorridentes, mas apresentará muito mais resultados a médio e longo prazo. Proença tem duas armas terríveis nas mãos: a gestão da disciplina, pela qual pode punir os prevaricadores, mas sobretudo os direitos sobre o futebol em Portugal. Como sou liberal por natureza, não acredito em proibições – não se pode proibir as pessoas de falar e, se o que elas têm para dizer é mau, não se pode proibi-las de falar mal. Mas acredito na ocupação desse espaço mediático com aquilo que o futebol tem de bom para oferecer: treinadores, jogadores, árbitros, adeptos verdadeiros. E isso, a Liga pode fazer. É só querer.