Último Passe 

2017-04-24
O que é trabalhar bem na formação

A presença do Benfica na final da UEFA Youth League vai servir para relançar o debate acerca do futebol de formação em Portugal. Como sempre, os argumentos mais populares serão aqueles movidos pelo clubismo, mas serão também os menos relevantes. Mais do que discutir se o Benfica ali chegou porque, ao contrário do Real Madrid ou do Barcelona, optou por chamar os jogadores da sua equipa B – um patamar acima – ou se esta conquista vem afinal dar razão ao troféu de “Melhor academia do Mundo” recebido nos Globe Soccer Awards, no Dubai, interessa perceber se o clube português está a trabalhar bem. Acho que sim e explico porquê: porque, mesmo não ganhando tanto como os rivais em sub19, começa a levar miúdos à equipa principal, a exemplo do que estes já faziam, e não deixa de ganhar aí, que é onde mais importa.

A estabilidade no comando técnico – João Tralhão, de 36 anos, tem uma década a trabalhar na Luz, metade como responsável principal dos sub19 – é um dos fatores a favor da tese do bom trabalho feito pelos encarnados. É mais fácil a quem está por ali muitos anos e acompanha as sucessivas gerações nos seus vários patamares de crescimento perceber quem vai dar jogador e quem não passará de promessa ou estabelecer um plano de evolução contínua das diversas equipas. Depois, a chegada de vários miúdos à equipa principal nos últimos anos é outro fator a ter em conta: muito mais do que as vendas milionárias dos jovens sem provas dadas que seguiram caminho no circuito Gestifute – e alguns, como Bernardo Silva, até vieram a superar o valor inflacionado que o carrossel lhes atribuiu, mas a verdade é que esses acabam por ser exceção – é a utilidade de jovens como Nelson Semedo, Gonçalo Guedes, Renato Sanches ou Lindelof para a equipa principal que vem sustentar a força do projeto do futebol de formação no Benfica.

Depois, há que distinguir aqui dois fatores. Um é o que vale esta equipa. Isso depende de muita coisa, a começar pela capacidade dos jogadores nascidos naquele par de anos – e ali há alguns que me encantam, como Florentino, Gedson ou Kalaica, mas convém não esquecer a forma sempre renhida como este Benfica chegou à final, com dois apuramentos nos penaltis. De qualquer modo, um clube pode ter uma geração excecional de sub19 num ano e outra mais fraca no ano seguinte e isso não quer dizer tudo acerca da sua formação. Esta geração do Benfica é forte, mas não conseguiu, por exemplo, ser campeã nacional de juniores: o FC Porto venceu os dois últimos campeonatos, relegando sempre o Sporting para o segundo lugar, tendo os encarnados sido quartos e sextos classificados. O que conduz à segunda parte da equação, que tem a ver com a integração de todas as categorias num só projeto, capaz de albergar pelo menos a equipa B. Porque à formação principal já não se chega por decreto mas apenas por capacidade e, é importante dizê-lo, se não houver condições financeiras de investimento que permitam trazer craques já feitos. E foi isso que o Benfica começou a fazer, mesmo tendo pelo caminho sofrido alguns percalços, como a atribulada permanência da equipa B na II Liga, há um ano.

Porque a verdade é que o debate acerca de quem tem a melhor formação não tem apenas a ver com títulos e também pode conduzir a irrelevantes vitórias de Pirro. Se olharmos para os resultados nestas categorias, a melhor formação neste momento será a do FC Porto, que é o atual bicampeão nacional de sub19 e conseguiu mesmo levar a sua equipa B a ser campeã nacional da II Liga em 2015/16. Se olharmos para a capacidade de colocar jogadores na equipa principal, o troféu já muda de mãos e é atribuído ao Sporting, que raramente entra em campo com menos de uma mão cheia de jogadores formados em casa: ainda no dérbi com o Benfica lá estavam Rui Patrício, William, Adrien e Gelson, tendo posteriormente entrado Podence e ficado no banco prontos para qualquer eventualidade Beto, Esgaio e Ruben Semedo. Olha-se para a seleção nacional campeã europeia de seniores e nela quase sempre se descobre que mais de metade dos jogadores foram formados pelo Sporting em Alcochete, mas nem assim o Sporting conseguiu ser campeão nacional de seniores com eles.

O que o Benfica está a conseguir é outra coisa: está a colocar jogadores da formação no onze de Rui Vitória e de caminho tem continuado a ganhar nos seniores. Esse é o objetivo mais difícil de atingir e o que a presença da equipa portuguesa na final de Nyon permite pensar é que há ali mais gente em fila de espera. Depois, se ganham ou não, isso já depende de muita coisa que não tem a ver com formação.