Último Passe 

2017-04-23
Pelo relançamento do futebol em Portugal

Jogou-se um Sporting-Benfica e mais do que ao futebol está a dar-se atenção ao clima de ódio e confronto permanente que rodeia o futebol em Portugal. E aqui todos temos de ter a noção de que temos de fazer mais. Têm de fazer mais os dirigentes, têm de fazer mais os jornalistas, têm de fazer mais os treinadores e jogadores para que se crie um contexto em que os adeptos façam menos. Porque a verdade é que no dia seguinte à morte de mais um adepto em confrontos potenciados por este clima de tensão permanente serve de pouco virmos todos dizer que o futebol está um lugar perigoso quando não fazemos aquilo que tem de ser feito para o evitar. E o resultado é que no seguimento dos acontecimentos trágicos da madrugada anterior, o que mais se ouve é virem de um lado dizer que se o adepto morreu atropelado foi porque não tinha nada que andar nas imediações do Estádio da Luz às tantas da manhã – coisa boa não ia fazer… – e do outro aparecerem a lembrar que os que morrem e os que matam são sempre das mesmas cores – como se a idiotice tivesse uma cor fixa.

Já aqui defendi que se as coisas estão como estão é preciso procurar razões profundas e intervir nelas. Claro que era bom que se fizesse mais também no seguimento da tragédia. Era bom que Bruno de Carvalho se coibisse de fazer julgamentos morais se o que queria era ter Luís Filipe Vieira a seu lado na tribuna de honra – e provavelmente não queria. Era bom que Vieira passasse por cima desses julgamentos e não viesse depois questionar o que andava o adepto italiano a fazer nas imediações do Estádio da Luz se queria de facto contribuir para a pacificação geral, aparecendo ao lado do presidente do rival – e provavelmente também não queria. Era bom que, como cheguei a ver escrito ontem, as duas equipas se fizessem fotografar em conjunto com um apelo ao fair-play, que os dois treinadores fizessem até mais do que cumprimentar-se e dessem um forte abraço. Mas continuo a achar que tudo isso acabará por ser irrelevante se não se fizer nada no início da cadeia. E o início da cadeia passa pela tomada de decisões estratégicas, pelo reconhecimento de que o futebol é um assunto potencialmente atrativo para as massas e que se o “sistema” não permite que surjam conteúdos que o promovam, as corruptelas desse mesmo sistema acabarão por privilegiar os conteúdos que o arrastem para a lama. Como os programas televisivos de hooligans engravatados que passaram a servir de modelo para todas as conversas acerca do jogo nos cafés.

Vê-se muita gente queixar-se de que o futebol está nas ruas da amargura mas depois a engrossar as fileiras de seguidores dessas discussões da intensidade do toque ou do milímetro do fora de jogo, a subscrever teorias da conspiração que fariam corar de vergonha qualquer Jerry Fletcher ou Fox Mulder dos tempos modernos. Perante os acontecimentos dos últimos dias, vê-se já muita gente a dizer que deviam acabar os programas de futebol, os jornais desportivos, os debates de rádio… Tudo! Quando, como cantava Manuel Freire, “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. O futebol estará sempre na ordem do dia, a questão é a de saber se quem manda nele consegue que seja pelas boas razões. Como? Não é permitindo – é obrigando que os seus principais protagonistas, que são os jogadores e os treinadores, apareçam. É estes meterem na cabeça que o futebol não é uma ciência oculta e que mais vale falarem dos detalhes que enriquecem mesmo o jogo em vez de se refugiarem em lugares comuns que não interessam a ninguém. É os jornalistas serem também capazes de pensar fora da caixa e levarem as suas conversas para o retângulo de jogo em vez de ser para os gabinetes da comissão de arbitragem ou do conselho disciplinar. No dia em que isso acontecer, garanto, os adeptos também vão ser capazes de falar do jogo.

Claro que neste momento, fruto do que tem sido a realidade recente, da habituação dos adeptos aos conteúdos tóxicos, já transformada em dependência, seria sempre precisa uma reeducação, uma espécie de desintoxicação. A coisa nunca seria imediata. Ainda assim, estou convencido de que um programa de TV que amanhã juntasse os dois treinadores ou até dois jogadores com liberdade para falar do jogo suscitaria sempre mais interesse do que os intermináveis debates dos hooligans engravatados que enchem os serões televisivos por estes dias. Impossível, dirão alguns. Não vejo por que razão, respondo eu. Se a Liga é a dona do campeonato, se tem o poder de estabelecer um caderno de encargos para os clubes que nele querem participar, se nada a impede até de fundar uma produtora de TV que garanta que esses programas não descambam para os tais incitamentos ao ódio que estão a estragar o futebol em Portugal, se isto até já se faz no estrangeiro, não vejo por que não há-de poder ser feito em Portugal. A alternativa é virmos a breve prazo a coroar todos os anos um campeão da lixeira em que está a transformar-se o futebol em Portugal.

Texto adaptado do publicado no Diário de Notícias de 23.04.2016