Último Passe 

2017-04-21
O que vai pesar mais no dérbi

Antes de um dérbi, a pergunta é sempre a mesma: quem está melhor? E a resposta também: depende. Depende de muitas coisas, a começar pelo parâmetro que quisermos privilegiar. Se for a série estatística, está melhor o Sporting. Se for a força mental, vinda da motivação, está melhor o Benfica. Se o peso da responsabilidade funcionar como travão, o compromisso volta a ser mais favorável ao Sporting. Se, em contrapartida, servir de trampolim, então é o Benfica o favorito. Os que procuram respostas definitivas devem ter em conta que quando se defrontam duas equipas de valor tão aproximado, há aspetos incontroláveis, que só um conhecimento aprofundado da dinâmica interna dos dois grupos poderia ajudar a decifrar. E esse, ninguém o tem.

O Sporting joga em casa e está numa série melhor do que o Benfica: ganhou oito dos nove jogos que fez desde a derrota no Dragão, há mais de dois meses, enquanto que o Benfica só venceu dois dos últimos cinco (ou três dos derradeiros sete). A melhor forma do momento é, portanto, dos leões. No entanto, olhando para a qualidade de jogo que têm vindo a apresentar, ela não se aproxima sequer da que evidenciavam por alturas do dérbi do ano passado. E esse, ainda assim, perderam-no. As explicações encontram-se nos outros parâmetros, a começar pelo que o jogo significa para cada grupo de jogadores. Há um ano, ganhando o dérbi, o Sporting quase punha um ponto final da Liga, ficando de portas abertas para o desejado título de campeão. E isso, ao fim e ao cabo, não foi um fator motivacional, mas sim um travão de responsabilidade. Uma espécie de medo cénico que levou a equipa a dois jogos consecutivos sem ganhar – empate em Guimarães e derrota em casa com o Benfica – e promoveu a inversão das posições no topo da tabela.

Este ano, os leões estão fora da corrida pelo título. E não deixa de ser curioso que tenha sido após o jogo que os afastou – a derrota no Dragão – que encarrilaram para a melhor série da temporada. Estão mais soltos, mais desresponsabilizados. É o Benfica quem joga mais neste dérbi. Falta perceber como reage o grupo de Rui Vitória a este fator, se sentirá acréscimo de pressão ou de motivação. Há um ano, mesmo com um futebol menos trabalhado que o do Sporting de Jorge Jesus, a equipa encarnada ganhou o jogo que tinha de ganhar e não vacilou depois até final da época. A diferença é que, tal como o Sporting, também o Benfica tem feito esta época jogos menos bons do que há um ano – são disso exemplo a vitória em Moreira de Cónegos ou o empate em Paços de Ferreira. Não creio que esteja a jogar menos por uma questão de falta de motivação – a perspetiva de um inédito tetra-campeonato chega para manter a moral em alta – ou de excesso de pressão, que não deve afetar uma equipa tricampeã. Essa baixa de qualidade explica-se, nos dois lados, com aquilo de que menos se fala em Portugal quando se fala de futebol. O que? Precisamente, o futebol.

Este Benfica fez quase toda a época sem Jonas, cuja inteligência futebolística – a capacidade técnica servida por uma espécie de presciência que lhe permite adivinhar os lances uma fração de segundo antes de todos os outros e dessa forma tomar as melhores decisões – foi uma arma fundamental no título passado. Durante meia época, o Benfica teve Gonçalo Guedes, que ajudou a transformar a equipa, dando-lhe mais intensidade ofensiva e defensiva. Sem Guedes e com Jonas a aparecer e desaparecer, o Benfica nunca foi a equipa de 2015/16. Vale-lhe que também o Sporting está abaixo do coletivo da época passada. Há um ano, Jesus tinha Slimani e João Mário, que agora lhe faltam. Mas, argumentarão, Bas Dost até faz mais golos do que Slimani… É verdade. Mas Dost é um finalizador, enquanto Slimani fazia jogar toda a equipa. Quando se fala do que trabalhava o argelino, muitos reduzem esse aspeto à pressão defensiva sobre a saída de bola do adversário, mas isso nem era o mais importante: o que falta a este Sporting é um jogador que busque a profundidade ofensiva e dessa forma force o alargar do espaço entre as linhas defensivas do adversário, o espaço onde apareciam Téo Gutièrrez, Bryan Ruiz, João Mário e até Adrien.

Aqui chegados, a pergunta permanece: quem está melhor? E a resposta também: depende.