Último Passe 

2017-02-23
Os candidatos numa corrida de 400 metros

A ver Bruno de Carvalho e Pedro Madeira Rodrigues debaterem com vista às eleições do Sporting lembrei-me várias vezes de uma corrida de 400 metros. Os dois candidatos à presidência assemelhavam-se a dois atletas que, cada um na sua pista, iam traçando percursos paralelos, sem nunca se cruzarem. Madeira Rodrigues, o desafiante, focava-se nos aspetos que julga mais negativos no mandato do atual presidente e dizia que com ele tudo ia ser diferente. Bruno de Carvalho, por sua vez, centrava atenções no que considera serem as suas maiores vitórias e agitava documentos para as "provar", quase nunca dando respostas convincentes às críticas que lhe iam sendo lançadas. Resultado: as únicas vezes em que cruzaram argumentos foi acerca dos insultos que um e outro foram registando durante a campanha ou na questão das comissões, em que um disse uma coisa e outro disse outra. Duvido que um único sócio do Sporting tenha hoje mudado o seu sentido de voto.

Depois de ver os dois candidatos, quem era de Bruno de Carvalho vai continuar a ser de Bruno de Carvalho e criticará a atuação de Pedro Madeira Rodrigues e o facto de o desafiante quase se ter limitado a despejar frases feitas acerca do que quase toda a gente vê de negativo no presidente: a obsessão com o Benfica, o culto da personalidade, a dificuldade para aceitar opiniões divergentes... Por sua vez, quem era de Pedro Madeira Rodrigues continuará a ser de Pedro Madeira Rodrigues e a reparar que em vez de dar respostas concretas às críticas que lhe eram feitas, o presidente fugia para os temas em que se sentia mais confortável, como quando ripostou ao desequilíbrio entre despesas e receitas operacionais com o saldo positivo entre vendas e compras na equipa de futebol. 

A verdade é que, mesmo tendo passado todo o debate ao ataque, Madeira Rodrigues nunca disse como poderá fazer melhor aquilo que entende que Bruno de Carvalho fez mal - só que vai fazer melhor. E, mesmo tendo quase sempre dado a sensação de que estava ali apenas a cumprir um pró-forma, Bruno de Carvalho também nunca fez qualquer ato de contrição relativamente ao que lhe correu pior: a rábula de ter uma média de taças por ano superior à média geral do Sporting é um passo atrás relativamente ao discurso ambicioso de quem há quatro anos ia mudar o Mundo leonino e fazer do Sporting muito grande outra vez.

Se o debate serviu para alguma coisa foi para que Madeira Rodrigues se desse um pouco mais a conhecer. De Bruno de Carvalho já todos sabem o que é - é aquilo que tem feito, com coisas positivas e outras negativas. Já o desafiante mostrou trazer o discurso preparado, os soundbytes bem alinhados e decorados e até valer mais do que aquilo que a perceção geral lhe concede em termos de reais possibilidades de vir a ser presidente do Sporting já este ano. A não ser que haja uma grande surpresa daqui até dia 4 de Março, Bruno de Carvalho vai ser re-eleito para mais um mandato à frente do Sporting. Pedro Madeira Rodrigues poderá capitalizar os votos que vier a acumular para se constituir como alternativa válida, como oposição que nenhum dos três grandes clubes portugueses verdadeiramente tem. Se quiser vir a contar, o candidato perceberá que a sua melhor aposta é no médio e no longo prazo e que a corrida que mais lhe interessa não é de 400 metros. É uma maratona.