Último Passe 

2015-09-15
A importância do desequilíbrio no futebol do Benfica

Onze minutos chegaram para reduzir a escombros o que tinha sido meio jogo de apatia e indiferença. Quando os seus jogadores finalmente se consciencializaram que para atacar é preciso moverem-se, saírem das posições, de forma a abrir a organização de quem defende, Gaitán abriu o livro e o Benfica resolveu o problema que lhe estava a ser colocado pelo Astana. Onze minutos depois, Mitroglou fechou o resultado. A vitória por 2-0 com que os encarnados resolveram a primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões foi justa, mas dela resultam tanto sinais de satisfação como de preocupação. De satisfação porque há ali gente muito forte do ponto de vista individual, gente capaz de desequilibrar; de preocupação porque não fico com a certeza que o estatismo da primeira parte não seja mais programático ou estratégico do que fruto de um dia mau.

O Benfica começou o jogo num 4x1x3x2 clássico e com saída de bola quase sempre feita pelas laterais. Tinha dois extremos (Gonçalo Guedes e Gaitán) cuja obsessão pela largura ficou bem à vista no momento do pontapé de saída, com cada um encostado à sua linha lateral. Tinha dois pontas-de-lança (Mitroglou e Jonas) muito metidos no corredor central e raramente procurando movimentos em direção aos médios ou aos extremos. E tinha dois médios-centro (Samaris e Talisca) que ou tinham bola e uma cortina de jogadores adversários à frente (e Talisca é inútil nesse tipo de futebol) ou viam o jogo de lado, sem conseguirem cobrir toda a extensão de campo que ia de um ala ao outro para deles se aproximarem. O 4x1x3x2 da primeira parte não só parecia demasiado rígido, como desprezava o fundamental deste esquema táctico – a profundidade dada ao jogo atacante pelos laterais. Como estavam sempre na saída de bola e a dirigiam ao extremo do seu lado, mas a este não eram dadas opções de passe pelos médios centro ou pelos avançados, os laterais não podiam dobrar os extremos em busca de profundidade ou fazer movimentos interiores, com receio que o momento de transição defensiva os apanhasse fora do lugar. Resultado: primeira parte lenta do Benfica (não é possível correr depressa se não se tem para onde) e confortável para o Astana, que nesse período foi mesmo capaz de dividir o jogo.

A segunda parte foi diferente. Mitroglou procurou mais os corredores laterais e numa dessas movimentações criou condições para a aceleração de Gaitán que deu o 1-0: notável a forma como, com bola, o argentino conseguiu ser mais rápido que os três adversários que estavam na sua zona. Jonas fez mais desmarcações de apoio para o espaço entre as linhas defensiva e de meio-campo do Astana e numa delas lançou Eliseu no bico da área, para que este pudesse oferecer o 2-0 a Mitroglou. Aquilo que a segunda parte mostrou aos jogadores do Benfica é que é preciso correr, mas com noção exata de que se corre para criar um desequilíbrio. Se assim for – como foi depois do intervalo – as coisas podem correr muito melhor. Se a ideia for pura e simplesmente correr em frente, então mais vale estarem quietinhos.