Último Passe 

2017-01-29
Uma final para gostar de futebol

O apuramento de Sp. Braga e Moreirense para a final da Taça da Liga podia ser uma excelente oportunidade para ensinar os portugueses a gostar de futebol. Os dois jogos das meias-finais foram excelentes, com ritmo, boa qualidade dos executantes e opções estratégicas bastante interessantes, pelo que se antevê uma final igualmente atrativa. Com um senão: em campo não vai estar nenhum dos três grandes. Óbice de monta para um país onde em vez de gostarem de futebol, os adeptos gostam dos seus clubes.

Os números não enganam. A Liga portuguesa tem-se esforçado na promoção do espetáculo, na tentativa de encontrar os melhores horários para fazer subir os protagonistas aos relvados – e a este propósito ainda há demasiados jogos em horas pouco convidativas de dias ainda menos interessantes – e nisso tem sido acompanhada por alguns clubes, que já perceberam que é na capacidade para mobilizar o seu exército que se tornam mais fortes. Em termos gerais, ainda sem contar com os jogos desta 19ª jornada entretanto realizados, a média de espectadores por jogo na Liga cresceu 6,5 por cento, dos 10.802 nos jogos do campeonato passado para os atuais 11.552. Não são os 43.300 de média da Bundesliga ou os mais de 36 mil da Premier League, nem sequer os 19 mil da Liga holandesa, a que mais se aproxima das cinco grandes, mas já são um valor assinalável. Sobretudo se repararmos que 11 das 18 equipas da Liga portuguesa cresceram em espectadores da época passada para a corrente e que das sete que baixaram duas – Sp. Braga e Moreirense, exatamente os finalistas da Taça da Liga – ainda não receberam nenhum dos três grandes no seu estádio.

Ora é aqui que entra nas contas o principal fator desequilibrante: os três grandes. Só porque o Benfica subiu de 50.322 para 56.031 espectadores por jogo (aumento de 10%); porque o Sporting tem sido capaz de acompanhar os campeões nacionais, com um crescimento de 39.988 para 43.148 espectadores por jogo (subida de 7%) e o FC Porto também aumentou o público por jogo em casa de 32.324 para 35.305 (crescimento de 8%), isso não quer dizer que esteja tudo bem. Porque há uma Liga dos três e uma Liga dos restantes. Sim, é verdade que ainda temos mais uma equipa acima da média geral – o Vitória de Guimarães, que leva em média 17.581 pessoas a cada jogo. As outras 14 estão abaixo da média. Com a agravante de haver uma média para a Liga e outra, bem diferente, para os jogos que não envolvem nenhum dos três grandes, nem na qualidade de visitado nem de visitante, como será o caso da final de hoje, no Algarve: os 111 desafios já disputados sem a presença de nenhum dos três candidatos ao título foram capazes de arrastar até ao estádio pouco mais de 429 mil pessoas. São 3865 espectadores por jogo.

Estou convencido de que há maneiras de fazer crescer estes números – e um dia voltarei a este assunto. Neste momento, porém, o que interessa é a final da Taça da Liga e fazer com que o público esteja à altura de duas equipas que valem mais do que os espectadores que levam ao estádio (10.100 por jogo no caso do Sp. Braga; 1.424 no Moreirense, a equipa com menos presença média de adeptos de toda a Liga). Porque aquilo que Sp. Braga e Moreirense foram capazes de mostrar nas meias-finais justificaria um público interessado e conhecedor, mesmo que não seja diretamente interessado numa ou noutra equipa. São duas equipas que sofreram há pouco um processo de mudança técnica, com as entradas de Jorge Simão e Augusto Inácio, mas que já sabem aproveitar muito do que os novos treinadores têm para lhes oferecer: uma boa organização acima de tudo no caso de Simão, a inteligência estratégica que a experiência já longa lhe proporciona no caso de Inácio.

O Sp. Braga de Simão passou a ser forte onde a equipa de José Peseiro mais vacilava: no meio-campo. Com Battaglia ao lado de Xeka, os arsenalistas formam uma dupla capaz de ocupar sempre bem a posição que é o coração de qualquer equipa de Simão. Já tinha sido assim no Belenenses, no Paços de Ferreira e no Chaves, os três clubes de topo que o treinador lisboeta dirigiu antes de chegar ao Minho. Depois, a qualidade ofensiva já lá estava, com extremos da categoria de Pedro Santos, Ricardo Horta ou Wilson Eduardo, avançados como Stojiljkovic, Rui Fonte ou Hassan ou até a integração permanente dos dois laterais em manobras atacantes. Por seu turno, o Moreirense de Inácio soube potenciar melhor as caraterísticas dos seus melhores jogadores, fazendo sobressair as capacidades de Dramé, Boateng ou Podence em contra-ataque e de médios como o promissor Francisco Geraldes – um cérebro futebolístico ao serviço de bons pés – e o seguro Fernando Alexandre.