Último Passe 

2017-01-26
Os dois lados da proeza do Moreirense

Augusto Inácio tinha dito no lançamento da meia-final da Taça da Liga que se o Moreirense chegasse à final toda a gente ia dizer com espanto: “Ahhhh, o Moreirense ganhou ao Benfica!” No entanto, quando a equipa minhota venceu de facto os tricampeões nacionais, a maioria dos observadores vai dizer outra coisa: “Ahhh, o Benfica perdeu com o Moreirense!” É o normal num futebol tão tricéfalo como o português, mas a verdade é que a surpresa do Algarve tem dois lados. Um fala da perda de qualidade defensiva de um Benfica que entrou em quebra quando perdeu Fejsa e que passou a sofrer muito mais na primeira zona de pressão quando recuperou Jonas. O outro de uma segunda parte épica de um Moreirense seguro por Fernando Alexandre, com Geraldes, Podence, Dramé e Boateng a darem um recital de contra-ataque.

A história faz-se dos vencedores. Depois de uma primeira parte sem chama, Augusto Inácio foi à procura da felicidade com duas substituições que ajudam a explicar o desfecho do jogo. O velocíssimo Podence e o sempre inteligente Geraldes já lá estavam, mas faltava a âncora que veio a ser Fernando Alexandre e uma outra seta na frente que foi Dramé. O Moreirense fez três golos, mas podia ter feito mais, fruto da velocidade nos últimos metros, da capacidade de lançar os seus velocistas em passes de rutura desde a zona de meio-campo, mas também da forma de sair a jogar desde trás, iludindo um Benfica muito menos eficaz na reação à perda do que tem sido habitual: uma coisa é ter ali Jiménez, Cervi ou Gonçalo Guedes, que correm sempre atrás da bola e travam a organização adversária desde cedo, e outra, bem diferente, é entrar com Jonas, Rafa e Carrillo, muito mais passivos do ponto de vista defensivo.

Não é só por aí que se explicam os três golos encaixados pelo Benfica, porém. Sobretudo porque se sucedem a dois feitos pelo Leixões e outros três pelo Boavista. Fejsa lesionou-se em Guimarães, no dia 7 deste mês, e nos cinco jogos que se seguiram a equipa de Rui Vitória sofreu oito golos. Tantos como nos onze jogos anteriores, sendo que nessa série mais antiga – que incluiu sete partidas seguidas em branco – os adversários foram do calibre de Napoli, Sporting ou Besiktas. A falta do sérvio fez-se sentir na forma como a equipa não tem sido capaz de travar trocas de bola aos adversários, tanto no espaço interior como nos corredores laterais, onde a ação de limpa-pára-brisas de Fejsa costuma ser igualmente importante. É verdade que mesmo assim o Benfica ainda podia ter chegado ao empate – acertou duas vezes nos postes da baliza de Makharidze – mas ninguém estranhará que se diga neste momento que do regresso pronto de Fejsa dependerá a capacidade de impedir que este mau momento defensivo se alargue ao campeonato.