Último Passe 

2017-01-17
O caminho de Bruno de Carvalho até às eleições

A eliminação da Taça de Portugal, a somar à saída prematura da Europa e da Taça da Liga e aos oito pontos de atraso para o Benfica na Liga, vem provocar um dos momentos mais difíceis dos quatro anos de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting. O “black-out” decretado antes da dupla visita a Chaves não permite antecipar como vão reagir jogadores, treinadores e o próprio presidente, mas o melhor para o clube era mesmo que se evitasse o extremar de posições e que as reflexões fossem feitas sem ninguém ter de puxar galões para ficar melhor na fotografia. Mesmo em vésperas de eleições.

As razões desta má época estão identificadas: o plantel teve investimento mas não foi bem construído, uma vez que o perfil dos jogadores que entraram não tem muito a ver com o perfil dos que saíram. A equipa vinha de uma temporada fulgurante, com grande futebol, a jogar de olhos fechados, pelo que a vontade de mudar se tornava difícil de entender. Ela foi, no entanto, assumida, não nas palavras mas nos atos. Aqui chegados, a única forma de resolver o assunto é emendar caminho, ver que erros se cometeram e quem os cometeu, mas fazê-lo internamente e de forma serena. Os jogadores que estiverem a mais devem sabê-lo nas movimentações de mercado e não em acusações mais ou menos públicas de quem está interessado apenas em desviar as atenções. Porque enquanto estiverem no clube podem ser chamados a defender a camisola e convém que o façam de cabeça fria.

Jesus também não tem feito a melhor gestão do grupo, é verdade. Seja por causa das mudanças permanentes em duas ou três posições – impedindo que alguns elementos do onze ganhem a rotina e a confiança que permitia o futebol da época passada – ou da insistência em soluções que dificilmente resultarão, a equipa está uma sombra daquilo que já foi. Em campo, o futebol de ataque não sai fluente e a defesa parece titubeante e desconcentrada. Ainda assim, certamente que Jesus não deixou em ano e meio de ser o treinador em quem Bruno de Carvalho meteu todas as fichas e a boa solução não passará nunca pela sua saída. Até porque quem o conhece sabe que ele não desistirá nunca e despedi-lo custaria valores que o Sporting não pode dar-se ao luxo de pagar – nem isso seria inteligente. Apostar numa estratégia de desgaste, com a criação de condições para que ele arque sozinho com as culpas em termos públicos – para limpar a face de outros – colocaria em risco o que resta de temporada, onde o Sporting ainda terá uma palavra a dizer em termos de campeonato ou de qualificação direta para a Liga dos Campeões.

O problema, na perspetiva de Bruno de Carvalho, é que está a mês e meio das eleições e quer continuar por mais quatro anos à frente do clube. Em campanha, o presidente não pode repetir a estratégia corrosiva de há quatro anos, porque já não é oposição. E não pode renegar a sua quota-parte de culpa na situação atual, porque nesse caso já só os “yesmen” do costume o seguiriam numa “egotrip” difícil de levar a sério. Se acredita mesmo no trabalho que tem feito, Bruno de Carvalho terá de enfrentar o veredicto dos sócios com serenidade e a humildade própria de quem está em quarto lugar na Liga e fora de todas as outras competições. Mais do que isso seria um abuso de confiança.