Último Passe 

2017-01-16
O futebol do Sporting e as eleições

A oito pontos do Benfica no campeonato, onde já perdeu mais pontos em meia Liga do que em toda a edição passada, prematuramente afastado da Europa e da Taça da Liga, é evidente que o Sporting joga muito do que vai ser a sua temporada 2016/17 na eliminatória dos quartos-de-final da Taça de Portugal, em Chaves. A importância do jogo foi suficiente para, mesmo em black-out – ou talvez sobretudo por haver black-out – Bruno de Carvalho saltar de novo para o topo da atualidade.

O presidente está no olho do furacão por uma razão muito simples: tem eleições daqui a mês e meio e não quer chegar lá com a equipa de futebol numa posição próxima daquela em que a encontrou, temendo legitimar quem é agora oposição. No plano teórico, faz sentido. Na prática, porém, a realidade parece-me muito diferente. O modelo populista da liderança que incorpora, a mimetização de comportamentos já vistos a Pinto da Costa nos anos 80 ou a Luís Filipe Vieira no início deste século levam-me a crer que Bruno de Carvalho precisava sobretudo de estar quieto e passar despercebido para ganhar as eleições. Fá-lo-ia sem problemas de maior. Isso, porém, não casa com a sua elevada auto-estima e a vontade de não deixar ninguém sequer a suspeitar que a culpa do que corre mal possa pertencer-lhe. O pior é que quanto mais se mexe publicamente no problema maior é a dimensão que ele assume. E quanto mais se aborda a questão da culpa desta forma, para a afastar, mais ela se aproxima dos que estão com ele no mesmo barco.

Começa a ser evidente que houve erros na planificação da época do Sporting. Erros de mercado, em primeiro lugar. Não tanto em questões de qualidade – ninguém põe em causa Bas Dost ou Campbell, por exemplo – mas sobretudo em termos de perfis, pois os jogadores que chegaram são muito diferentes daqueles que partiram. Dost não é Slimani e disso se ressente Bryan Ruiz, por exemplo; não há ninguém capaz de fazer o que fazia Téo; André não se aproxima do futebol de Montero; e ao meio-campo falta um terceiro jogador de controlo, como era João Mário. Os resultados têm a ver com isso, como acontece sempre. Querer encontrar a explicação nas substituições feitas neste ou naquele jogo ou no facto de alguns jogadores saírem à noite antes da folga é mascarar o problema. É dizer que o mercado foi bem planeado e dirigido, mas a equipa não ganha por falta de empenho de quem está em campo.

E a questão aqui é a de se saber por que razão se quer mascarar o problema – porque a tese até foi avançada no próprio canal televisivo do clube. Se foi uma repetição do episódio José Eduardo-Marco Silva, uma tentativa de encontrar alguém para sacrificar no pelourinho, foi má ideia, porque Bruno de Carvalho precisa dos jogadores para chegar a Março em boa posição. Se o objetivo foi justificar a intervenção do presidente no balneário no final do empate em Chaves para o campeonato, também foi má ideia, porque ainda levou a que se falasse mais no assunto. Se o que se queria era motivar uma reação pronta dos jogadores, eventualmente feridos no orgulho, ver-se-á no jogo da Taça se isso resultou, mas na última vez que se entrou por este caminho – as críticas do próprio presidente no Facebook, após uma derrota em Guimarães, há dois anos – ainda se avolumaram os problemas de que a equipa sofria e a distância para o topo da tabela.