Último Passe 

2016-12-28
Ronaldo, Santos e a arte do compromisso

A imagem de Cristiano Ronaldo de pé junto à linha lateral, ao lado de Fernando Santos, ambos a gritar instruções para dentro do campo, na final do Europeu, era uma espécie de prenúncio da presença de ambos na gala da FIFA, como candidatos a vencedores dos prémios de melhor jogador e treinador de 2016. Os méritos de cada um para lá chegar são, contudo, muito diferentes.
A presença de Ronaldo a este nível é habitual e é seguro dizer que ele lá estaria na mesma se Portugal não tivesse ganho a final contra a França. A vitória nesse jogo, mesmo tendo em conta que, lesionado desde cedo, nesse dia ele pouco contribuiu em campo, será o empurrão final para que o português possa somar mais um título de melhor do Mundo à Bola de Ouro da France-Football, mantendo acesa a disputa com Messi para definir qual dos dois extra-terrestres é mais alienígena. O que Ronaldo ganhou nesse dia afasta-o do argentino num particular: mesmo jogando numa seleção potencialmente mais fraca, já a conduziu a um título internacional, coisa que Leo ainda não fez com a bem mais poderosa Argentina.
A reeleição de Ronaldo como melhor do ano, porém, não se esgota ali. É feita dos números mais uma vez impressionantes de golos, da vitória na final da Liga dos Campeões com o Real Madrid e também, porque isso revelou uma dimensão diferente do craque, do que mostrou ao nível da liderança na fase final do Europeu. O incidente do microfone, no qual se viu um Ronaldo irado com críticas e a virar a ira para o lado menos produtivo – para os jornalistas – marcará uma diferença entre o Ronaldo egocêntrico e o Ronaldo coletivo. A partir daí, o que se viu foi um CR7 que não se importava de se sacrificar em prol da equipa, que colocava o resultado final da seleção à frente do seu destaque pessoal na forma de lá chegar. A presença do craque ao lado de Fernando Santos na linha lateral no calor da disputa com a França ilustra aquilo que foi bem mais profundo: o compromisso entre os dois. E aí começa a explicar-se a entrada de Fernando Santos no lote dos que vão lutar pelo título de treinador do ano.
Porque há muitas formas de ter êxito como treinador. O povo fala de táticas, o analista junta a estratégia, não há quem negue que o estar rodeado dos colaboradores certos tem muita importância, mas não há nada mais decisivo do que ser capaz de tirar o melhor de cada jogador. Fazer que cada um assuma na primeira pessoa o compromisso com o coletivo. Foi isso que Fernando Santos teve a arte de conseguir. E foi por isso que saiu de França com o título de campeão da Europa.