Último Passe 

2016-12-26
Quatro cartas ao Pai Natal

O Natal é tempo de ofertas e seguramente que os treinadores dos primeiros colocados da Liga portuguesa estarão a pensar no que gostariam de ver debaixo do pinheiro. É uma forma de encarar o que se passou neste ano e o que os espera em 2017: Rui Vitória quererá poder contar com mais gente no ativo; Nuno Espírito Santo com um par de reforços que compatibilizem melhor o plantel com a evolução da ideia de jogo; Jorge Jesus com uma certeza acerca da mudança da ideia de jogo do Sporting; e Jorge Simão com tempo, uma pausa natalícia mais demorada para poder criar um Sp. Braga mais à sua imagem.

O maior problema de Rui Vitória têm sido as lesões. Pois o Pai Natal vai trazer-lhe novidades: a interrupção das competições permitir-lhe-á recuperar alguns jogadores e, desde que eles deixem de cair que nem tordos no que falta de Liga – como aconteceu até aqui – aquilo que mais pode preocupar o treinador do Benfica serão as saídas no mercado de Janeiro. É que embora lutem pelo mesmo objetivo, o treinador e o presidente não têm necessariamente de ter as agendas fotocopiadas. A de Rui Vitória passa por manter as armas que tem, mesmo sem estar a pensar em reforços; a de Luís Filipe Vieira – e de Jorge Mendes – fala em aproveitar (e criar) ocasiões de negócio para a SAD. A eventual saída de Lindelof para o Manchester United, mais a mais se for pelos números irreais de que se tem falado, até pode ser bem ultrapassada com o regresso de Jardel ou Lisandro López ao onze, mas se ao central se juntar Nelson Semedo a equipa já sairá prejudicada. Mesmo tendo em conta a recente quebra de rendimento do lateral, a profundidade que ele continua a dar no corredor direito e a velocidade que exibe na recuperação defensiva são fundamentais para manter a força deste Benfica.

A desejar que eles saiam estará seguramente Nuno Espírito Santo, treinador de um FC Porto que fez uma primeira parte da época em crescendo e já se mostra o obstáculo maior ao tetra do Benfica. Só que Nuno tem com que se preocupar dentro de casa também, onde lhe faltam mais um extremo verdadeiro e um ponta-de-lança capaz de aliviar a carga de André Silva. O crescimento atacante do FC Porto teve a ver com a entrada no onze de extremos verdadeiros, Corona e Brahimi, por oposição à preferência até ali dada a médios com tendência a jogar por dentro, como Otávio e sobretudo Herrera ou André André. A história da recuperação de Brahimi talvez nunca seja contada, mas o mais certo é ele ter de se ausentar para jogar a Taça de África pela sua seleção – e já se sabe que quando vão jogar esta prova, os africanos voltam muitas vezes com ideias diferentes. Por isso, até tendo em conta que a prova começa já em meados de Janeiro, do que Nuno precisa é de mais um extremo. Pode ser Jota? Poder, até pode, mas isso só virá reforçar a necessidade de outroavançado, que aí já me parece difícil ser Depoitre, condenado a servir como reforço para um Plano B de jogo, com bolas altas a cair na área. A opção, aqui, terá de ser entre manter tudo como está e encontrar um jogador móvel, ou ir à procura de um trabalhador explosivo. O objetivo será sempre o mesmo: conseguir que André Silva se centre mais na tarefa de fazer golos.

Jorge Simão quererá certamente aproximar o seu Sp. Braga daquilo que eram o seu Paços de Ferreira ou o seu Chaves e até, em certa medida, o seu Belenenses. A chegada de Battaglia é uma pista nesse sentido, mas a transformação de uma equipa de futebol solto, criativo e em certa medida até potenciador da desorganização em termos atacantes num coletivo sólido e capaz de se impor pela repetição e mecanização de processos não é simples. E o tempo, em competição, nunca é muito para mudar as coisas de forma consolidada.

Já Jorge Jesus precisa de pensar numa segunda metade da época muito perto dos 100 por cento de rendimento para ir de férias feliz. Já não tem Europa e poderá trabalhar a equipa para jogar uma vez por semana, o que é o cenário ideal para quem pensa como ele, separando claramente os titulares dos reservistas. O que lhe falta, então, é encontrar a ideia certa para os jogadores que tem – à ideia da época passada, faltam Teo, João Mário e sobretudo Slimani, com todas as implicações que isso tem na agressividade na frente, no controlo ao meio e na capacidade para abrir espaços através da procura da profundidade. Se tiver essa ideia de jogo no sapatinho, talvez o Sporting ainda possa acabar a época a ganhar coisas interessantes. Caso contrário, falar-se-á sempre de um segundo ano em regressão após uma excelente primeira temporada.