Último Passe 

2016-12-23
A discussão dos títulos para lá de Bruno de Carvalho

A questão do total de títulos nacionais de futebol tem sido vista à luz da rivalidade entre os maiores clubes ou da estratégia de comunicação de Bruno de Carvalho, que a trouxe para a agenda mediática com o intuito de comprar mais uma guerra que sirva de forma de afirmação ao Sporting, mas vale muito mais do que tudo isso. Porque em causa não estão só o total de títulos de campeão nacional dos leões e, por inerência, do Benfica e do FC Porto. Em causa estão também os títulos de clubes como o Olhanense, o Marítimo, o Belenenses ou o já extinto Carcavelinhos (um dos clubes que deu lugar ao Atlético), que merecem tanto respeito como os três grandes, suportados em milhões de adeptos. Em causa está se a decisão do campeão nacional é retrospetiva ou prospetiva, feita a olhar para trás ou para a frente. Porque uma coisa é certa: não pode haver anos com dois campeões.

A FPF decidiu que contam como títulos de campeão nacional os três campeonatos da I Liga, realizados entre 1934/35 e 1937/38, por serem provas por jornadas, em modelo de todos contra todos, e terem sido jogados antes da instituição do campeonato nacional da I Divisão, em 1938/39. Decidiu ainda a FPF não contar como suscetíveis de atribuição do título de campeão nacional os 17 Campeonatos de Portugal, jogados entre 1921/22 e 1937/38, por os considerar antepassados da Taça de Portugal, também ela jogada por eliminatórias a partir de 1938/39. Dessa forma, aos títulos de vencedor do campeonato nacional de futebol – Benfica por 32 vezes, FC Porto por 26, Sporting por 18, Belenenses e Boavista com um cada – somam-se mais três do Benfica e um do FC Porto, fruto das vitórias que conquistaram no tal campeonato da I Liga. Pretenderia o presidente do Sporting que, em vez desses títulos da I Liga, fossem contabilizados os vencedores do Campeonato de Portugal: quatro troféus do FC Porto e do Sporting, que assim aumentariam o pecúlio para 29 e 22 títulos, respetivamente; três do Benfica, que subiria na mesma para 35, substituindo as três Ligas por igual número de campeonatos de Portugal; três do Belenenses, que passaria a considerar-se quatro vezes campeão nacional; mais um do Olhanense, um do Marítimo e um do Carcavelinhos, que engrossariam o lote de campeões.

A tese da FPF é que o antepassado do atual campeonato nacional é o campeonato da Liga, também ele jogado por jornadas. Faz sentido. Mas também pode não fazer. Ora, façamos um pouco de história. O futebol português andou uns anos atrás do resto da Europa, a ponto de só em 1922 se ter extravasado o nível regional no que a competições respeitava. Nesse final de época de 1921/22 jogou-se pela primeira vez o Campeonato de Portugal, que em ano de estreia se resumiu a uma espécie de finalíssima entre os campeões de Lisboa (o Sporting) e do Porto (o FC Porto). Ganharam os nortenhos, que tal como todos os seus sucessores na prova adquiriram o direito a apresentar-se como “campeões de Portugal”. Veja-se o caso do Benfica de 1930, de que se mostra na imagem acima o cartaz relativo ao almoço de homenagem aos jogadores.

O Campeonato de Portugal foi evoluindo. Na segunda edição, além de Sporting e FC Porto, outra vez campeões dos seus distritos, já participaram os campeões de Coimbra, da Madeira, do Minho e do Algarve. E a prova foi-se alargando a mais regiões, até passar, a dada altura, a permitir a entrada de mais do que um representante por cada distrito. Iam-se assim sucedendo os campeões de Portugal. E tudo continuou igual até que, em Março de 1934, a seleção nacional foi arrasada pela Espanha em Chamartin. Foram 9-0, a eliminação do Mundial e a abertura de um processo de reformulação dos quadros competitivos do futebol nacional. Uma das coisas que os espanhóis tinham e os portugueses não era competição nacional regular – o Campeonato de Portugal só se jogava de Maio a Julho – sob a forma de uma prova por jornadas, em que todos os clubes se defrontavam a duas voltas. Os portugueses resolveram imitar esse modelo e criaram, ainda que de modo experimental, o campeonato da Liga – cujo nome derivou do modelo inglês. A prova foi introduzida a título experimental, por se temer que o aumento da receita não chegasse para cobrir o aumento da despesa com deslocações mais longas e frequentes. Foi um sucesso.

Ora é aqui que se introduz a rotura. Para a FPF, agora, os 13 campeões de Portugal até aí coroados deixaram de o ser. E os vencedores das quatro Ligas experimentais que antecederam a criação do campeonato nacional de futebol, em 1938/39, passaram a poder ostentar o título de campeão nacional. O primeiro campeonato da Liga, em 1934/35, foi ganho pelo FC Porto, mas nesse mesmo ano o Benfica venceu o Campeonato de Portugal, batendo o Sporting na final, por 2-1. Na página 143 do segundo volume da História do Sport Lisboa e Benfica (1904/1954), obra excecional editada aquando do cinquentenário do clube por Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva e prefaciada por Ribeiro dos Reis, reproduz-se a ementa do jantar oficial de homenagem “Ao team de Foot-Ball Campeão de Portugal” do Sport Lisboa e Benfica. Teve lugar nas Portas do Sol, em Santarém, a 21 de Julho de 1935. Claro que se a prova se chamava Campeonato de Portugal, a equipa que a ganhava se considerava campeã de Portugal. Nem outra coisa faria sentido, apesar de já existir o campeonato da Liga, que nesse ano coroou o FC Porto.

Só em 1938 o panorama competitivo voltou a mudar. Ao campeonato da Liga sucedeu o campeonato nacional de futebol; ao campeonato de Portugal seguiu-se a Taça de Portugal. As competições mantiveram os moldes de disputa, pelo que é natural que, vendo as coisas de trás para a frente, a FPF considere agora campeões nacionais os clubes vencedores da Liga e não os que ganharam o Campeonato de Portugal. Porque a questão é que, durante quatro anos, houve clubes cuja legitimidade para se considerarem campeões nacionais se funda no futuro (e na evolução que a competição veio a ter) e outros cuja legitimidade se funda no passado (e no facto de até 1934 o campeonato de Portugal ter sido a única prova nacional). Como não podia haver dois campeões nacionais no mesmo ano, era preciso tomar uma decisão. A FPF decidiu assim e a decisão tomou letra de lei. O mais justo, porém, seria separar as quatro provas e os respetivos palmarés. Porque a alternativa é dizer aos jogadores e aos clubes que ganharam o campeonato de Portugal entre 1922 e 1938 que afinal não foram campeões de Portugal. E isso vai muito para lá das provocações de Bruno de Carvalho ou das respostas dos adeptos benfiquistas.