Último Passe 

2016-12-19
O passo em falso do vídeo-árbitro

O vídeo-árbitro foi risível no Mundial de clubes e a experiência serviu aos que sempre se opuseram à sua utilização para provarem uma razão que na verdade não têm. Não tivesse Gianni Infantino, presidente da FIFA, vindo reiterar que o caminho é para ser percorrido e até me ocorreria pensar que foi para adiar a discussão por mais uns anos que serviu esta experiência. Como assim não é, importa aprender com os erros que foram cometidos para que o futebol possa centrar-se no que é fundamental. E o que é fundamental não é abolir o erro ou a componente subjetiva que preside a cada decisão. É dar aos árbitros os melhores meios de diagnóstico possíveis. E isso não foi feito no Mundial de clubes.

Aquilo que foi experimentado no Mundial de clubes é, em si, ridículo. Pedir a um árbitro que dê uma corridinha até um monitor colocado na linha lateral para ver uma repetição de um lance é apenas idiota, porque aumenta a pressão mediática sobre o decisor, com toda a gente a olhar para ele e para aquele pequeno monitor, porque não lhe dá todos os meios possíveis para esclarecer e trava na mesma o fluir o jogo. O que defendo não é isso. O que defendo há anos é a existência de um árbitro de régie, de um especialista treinado para tomar decisões rápidas com base em imagens televisivas, que tenha acesso imediato às imagens de todas as câmeras disponíveis para o realizador televisivo e que esteja em comunicação permanente por circuito áudio com os outros árbitros de campo.

A entrada em vigor deste sistema teria de pressupor alguma abertura por parte das instâncias que regem a arbitragem e o futebol em geral. Ganhar-se-ia, por exemplo, com uma explicação por parte do árbitro no sistema sonoro do estádio a cada decisão do vídeo-árbitro, para que todos os espectadores percebessem o que estava a passar-se. É o que se faz no râguebi, por exemplo. E quando se ativaria o vídeo-árbitro? Simples. O vídeo-árbitro poderia ser ativado de duas formas. Quando os clubes, pela voz do seu treinador ou do seu capitão de equipa, desafiassem a decisão do árbitro central (e perderiam esse direito após duas oportunidades em que não lhes fosse dada razão), nunca sendo o jogo interrompido para tal – a consulta seria feita após a interrupção normal seguinte. Ou então quando o árbitro central, por ter dúvidas ou por ter sido para tal alertado pelo árbitro de régie, quisesse, por si só, pedir uma segunda opinião a quem pudesse rever as imagens de vários ângulos.

É aqui que começam as objeções. Já ouvi muitas diferentes, mas todas são rebatíveis. Que o jogo perderia a fluidez, permitindo, por exemplo, a uma equipa pedir a intervenção do vídeo-árbitro só para impedir um contra-ataque perigoso após a perda da bola. Errado, pois nenhuma jogada seria interrompida, já que só após a interrupção normal de jogo se pediria a intergvenção do vídeo-árbitro. Que o árbitro-central perderia a sua capacidade de decisão, tendo de a delegar noutro elemento da equipa de arbitragem. Mas isso já acontece com os árbitros auxiliares, que se tornaram muito mais do que simples fiscais de linha. Ou algum árbitro central manda seguir o jogo depois de um seu auxiliar agitar a bandeira como se não houvesse amanhã para assinalar uma falta? Que levaria uma eternidade até se ter uma decisão. Outra vez errado. Basta perguntar a qualquer realizador quanto tempo leva a ter acesso a todas as imagens de todas as câmeras. Menos de um minuto, garanto.

A minha objeção preferida, porém, é a de que o vídeo-árbitro não anula o erro, como é evidente pela consulta a diferentes opiniões de ex-árbitros dadas em painéis de jornais ou sites de internet, e que por isso não vale a pena tê-lo. Claro que não anula o erro. Primeiro porque o erro, como se sabe, é humano. Não é o sal ou a alma do futebol, como já ouvi dizer, mas infelizmente faz parte. Depois, porque em todas as tomadas de decisão há uma componente subjetiva, que depende da opinião de quem está a decidir. O objetivo, porém, não é nem nunca pode ser anular o erro. Tem de ser, isso sim, auxiliar o diagnóstico de quem tem o dever de decidir. Impedir que quem decide tenha menos meios que qualquer tele-espectador sentado no conforto do seu sofá. Impedir que eu em casa veja com os dois olhos aquilo que quem tem de decidir só vê com aquele onde necessita de mais dioptrias.

O objetivo do vídeo-árbitro não tem de ser eliminar o erro. Tem de ser clarificar as coisas e, como disse Infantino, impedir que “uma equipa seja eliminada por causa de um erro dos árbitros”. Só por causa disso, serei sempre a favor.