Último Passe 

2016-12-12
A vertigem mudou de lado

A vertigem, que durante anos deu títulos a ganhar a Jorge Jesus, mudou de lado e resolveu o dérbi de ontem a favor do Benfica. Foi muito à conta da velocidade dos homens que tem do meio-campo para a frente, da forma como foi sendo capaz de explorar o espaço vazio entre e atrás das linhas do adversário e da rapidez de decisão e execução dos seus jogadores nas transições que o Benfica bateu um Sporting mais forte sempre que o jogo entrava em controlo. A crise que batia à porta do Estádio da Luz mudou de lado da Segunda Circular e ameaça agora Alvalade.
Jorge Jesus sempre construiu equipas vertiginosas. No Sporting, até em função dos jogadores que tinha e tem, mudou um pouco de estilo e aposta agora mais no controlo, ficando mesmo muitas vezes mais próximo do 4x2x3x1 do que do 4x4x2 de que nunca abdicava na Luz. Rui Vitória, por sua vez, sempre foi um treinador de futebol mais pausado e controlado - começou por tentar impor o 4x2x3x1 na Luz - mas este Benfica não lhe segue o pensamento, tanto se aproxima de uma equipa de velocistas, sobretudo na frente. Esta inversão de paradigmas vem mostrar que a identidade dos treinadores não conta assim tanto na definição daquilo a que joga uma equipa e que o papel dos líderes passa muito mais por fazer o melhor aproveitamento possível dos jogadores que têm do que por lhes mudar as formas de jogar ou pensar.
Nunca se saberá o que seria este Benfica com Jonas. Mais controlo, mais cérebro na definição de cada jogada, mais capacidade de antecipação do que vai suceder e maior qualidade de decisão, mas sem dúvida menos intensidade e velocidade na exploração dos espaços. Sem o brasileiro, este Benfica está até mais próximo daquilo que são as equipas típicas de Jesus: Jiménez e Guedes correm muito – por vezes até demais – com e sem bola, Salvio parece feito no mesmo molde e o próprio Rafa, que ontem foi o melhor do Benfica na capacidade para ir desenhando jogadas, é muito dependente do espaço atrás das linhas adversárias. O Benfica não precisou por isso do mesmo volume de jogo para criar tantos lances de perigo como o Sporting – e, mais importante, para lhe ganhar – porque era sempre capaz de encontrar estradas menos congestionadas par chegar ao objetivo.
Do outro lado, se é verdade que não pôde controlar a saída de Slimani, Jesus ainda fez os possíveis para ter uma equipa mais à sua imagem, vertiginosa, sobretudo com as contratações de Markovic e Campbell, dois velocistas que servem sobretudo para esticar o jogo. Só que, mesmo começando Campbell a justificar a aposta, o DNA desta equipa é outro, ditado pelo jogo mais cerebral de William e Ruiz ou pelas sinuosas corridas de Gelson. O próprio Dost é mais jogador de controlo que de esticões, se bem que a razão mais importante a levar Jesus a mudar de paradigma e a aproximar-se mais vezes do 4x2x3x1 terá sido a qualidade de uns e outros. Tal como no Benfica, não é possível saber como seria um Sporting com Markovic e Campbell e sem Ruiz ou William. Mais vertigem e menos controlo, mas não necessariamente melhores resultados.
No dérbi, fundamentalmente, o que decidiu foi a qualidade. A qualidade de Ederson em algumas defesas importantes, mas sempre tendo em conta que Rui Patrício também fez uma de grande nível. A qualidade de Rafa, de Dost, de Gelson, numa tarde em que nenhuma das duas equipas teve defesas laterais à altura dos acontecimentos. Semedo teve problemas com Bruno César e depois com Campbell, André Almeida sofreu com Gelson, mas os dois ainda foram sendo capazes de disfarçar, enquanto que no Sporting nem Zegelaar nem João Pereira estiveram à altura da exigência do jogo: o holandês está nos dois golos do Benfica e o português foi diretamente batido por Jiménez no lance do 2-0, quando tentou fechar ao meio depois do envolvimento dos centrais.
O resultado não fecha o campeonato, porque a derrota do Benfica na Madeira assegurou que ele ia continuar aberto. Mas serviu ao Benfica para afastar as nuvens negras que se aproximavam da Luz. Após duas derrotas seguidas e sobretudo num momento em que a equipa não anda a mostrar um futebol muito conseguido, o Benfica voltou a alargar a vantagem para o segundo classificado, porque este agora é o FC Porto. E caberá agora ao Sporting fazer a sua parte para afastar a crise de que terá de se falar devido às duas derrotas seguidas que implicaram o fim da Europa e o regresso aos cinco pontos de desvantagem para o líder. Sem nada a que se agarrar a não ser as competições internas, Jesus sabe que não tem mais margem de erro nas semanas que se aproximam se quer convencer a SAD a dar-lhe em Janeiro mas jogadores para atacar o grande objetivo da época.