Último Passe 

2016-12-05
O dérbi e os mind games

Os dérbis entre Benfica e Sporting sempre foram um jogo à parte na história do futebol português, mas nunca terão sido marcados por tantos “mind games” como na época passada, fruto da passagem de Jorge Jesus de um para o outro lado da Segunda Circular. Dos quatro desafios entre ambos que se jogaram em 2015/16, só o último não ficou marcado por trocas de galhardetes verbais – o que de certa forma vem contrariar a ideia segundo a qual os leões perderam o campeonato por causa da estratégia de polémica constante a envolver os rivais, pois esse foi o único dos quatro jogos que não ganharam. Esta época, porém, tudo parece mais morno. Ainda que o último fim-de-semana já tenha representado um ligeiro aquecer de reatores, a que a semana de Liga dos Campeões pode ou não dar o devido empurrão.

A época passada começou com Jorge Jesus ao ataque e Rui Vitória muito mais recatado. Por uma questão de personalidade – mais confrontacional a do atual treinador leonino, muito mais professoral a do técnico benfiquista. Os resultados favoráveis ao Sporting (1-0 na Supertaça, 3-0 na Luz para a Liga e 2-1 em Alvalade para a Taça de Portugal) ainda levaram a um extremar de posições por parte de Jesus, cujo ego, já se sabe, supera em muito o muito que já é capaz de fazer à frente de uma equipa. Passou-se do “eles perderam o cérebro” ao “pu-lo deste tamanhinho” e ao “nem o vejo como treinador”. Ao mesmo tempo, estas constantes provocações levaram ainda a uma tentativa certamente ensaiada mas nunca bem conseguida de resposta por parte de Vitória, que definitivamente não está na sua praia quando se trata de confronto. Não quero aqui fazer juízos morais acerca de um e de outro. Acho mesmo que, dentro de determinados limites, estas provocações animam as bancadas, levam os adeptos a sair de casa e a defender as suas cores com outra paixão. Até porque, no final, elas não foram decisivas: o que ganha os jogos são as bolas na baliza.

O que diz a teoria é que Jesus ganhará sempre no bate-boca, mas que terá perdido no campo porque as constantes provocações terão levado a uma muito maior união num adversário que nunca se importou de perder nos soundbytes desde que ganhasse nos relvados. A teoria, porém, também não tem necessariamente de estar certa. Porque da única vez que manteve o recato face ao adversário, Jesus perdeu o jogo (1-0 em Alvalade, para a Liga) e o próprio campeonato. A questão aqui é a de perceber porque esteve Jesus mais calado antes do quarto dérbi. Por falta de assunto, esgotados os temas de provocação? É possível. Por ter empatado em Guimarães na semana anterior, ter visto a vantagem diminuir e passar a correr ali o risco de ver o rival ultrapassá-lo na tabela (tal como pode acontecer agora ao Benfica de Rui Vitória)? É mais provável. Por entender que, já há oito meses na Luz, os jogadores rivais já não podiam ver as suas convicções acerca do velho e do novo mestre abaladas por declarações do primeiro? É ainda mais provável. O que transporta os “mind games” de Jesus para uma dimensão completamente diferente, da mera fanfarronice para a estratégia.

Pode ser por isso, aliás, que o aquecimento para o Benfica-Sporting de domingo tem sido tão lento e que talvez até possamos assistir a um cumprimento cordial entre os dois técnicos antes e no final da partida que definirá quem fica na frente do campeonato. Para gáudio de todos os que defendem um desporto assético e impoluto, sem tricas nem ofensas. Não tenho, ainda assim, a certeza de que tal venha a acontecer. Porque apesar dos mornos dias anteriores, houve ali, de parte a parte, sinais de que há alguma vontade de condicionar na sala de imprensa o que vai passar-se no relvado. Começou Rui Vitória, ainda antes da deslocação ao Funchal, quando aproveitou uma pergunta da BTV acerca do departamento médico – dando-se até ao trabalho de mostrar alguma surpresa por essa pergunta ter sido feita – para vir defender os médicos postos em causa e para deixar no ar um nada enigmático “eu não ando nisto há dois dias”. Tradução: alguém anda a pôr na rua notícias acerca do nosso descontentamento com o departamento médico e não somos nós mas sim quem nos quer mal. Continuou Jorge Jesus, quando após a vitória por 2-0 frente ao V. Setúbal aproveitou para vir queixar-se da arbitragem, que anulou dois golos aos leões – quando nem nas derrotas é hábito vê-lo pôr em causa os árbitros. Tradução: já fomos prejudicados hoje, portanto não se atrevam a apitar de modo a que não gostemos no jogo da Luz.

Os sinais estão lá. Os vulcões estão ativos, apenas à espera de um sinal para poderem entrar em erupção. E a semana europeia pode bem provocar ali alguma coisa. Antes de um jogo em que pode acabar de deitar ao lixo uma vantagem que já foi de sete pontos, o Benfica recebe o Napoli – que também precisa de pontuar – num jogo que, faça o Besiktas o seu papel em Kiev, pode ser de mata-mata. Um dia depois, o momento leonino pode ser afetado ou confirmado em Varsóvia – e francamente nem sei o que pode ativar mais Jesus, se a euforia ou a depressão – num jogo que pode mandar o Sporting para a Liga Europa ou deixá-lo sem provas europeias até final da temporada. Lá para o final da semana fazemos contas.