Último Passe 

2016-12-03
Se não é da ideia, então é da mensagem

O FC Porto podia até nem ter ganho ao Sp. Braga, tão tarde apareceu o golo salvador de Rui Pedro, mas isso teria sido uma tremenda injustiça. Porque hoje, ao contrário do que tem vindo a acontecer em quase todos os jogos dos Dragões, só faltaria mesmo o marcador - e não era aquele que falhou a Nuno Espírito Santo em mais uma aula prática de educação visual, dada esta semana aos jornalistas. O FC Porto encostou à baliza a equipa que, antes do jogo, era terceira na Liga, e nem o facto de os minhotos terem ficado reduzidos a dez ainda na primeira parte serve de justificação para a tão grande diferença entre o futebol jogado pelos dois conjuntos. O que leva a questão da crise portista para outro patamar: se esta equipa sabe jogar, por que razão não o faz mais vezes e passou mais de oito horas de jogo sem fazer um golo, contra equipas bem mais fracas que Benfica e Sp. Braga, que lhe motivaram as últimas exibições de bom nível?
À partida, ocorrem-me duas justificações. Uma é meramente futebolística e muito concreta. A outra entra na psicologia de balneário e tem o seu quê de adivinha. A mais concreta fala da ideia de jogo de Nuno Espírito Santo, uma ideia bem mais alicerçada nos momentos de transição do que nos momentos de organização. O FC Porto de Nuno é muito forte na reação à perda da bola - transição defensiva - e imediatamente após a recuperação da posse - transição ofensiva. Para que esta equipa possa exprimir-se na plenitude, é preciso que o adversário queira ter a bola. Ora a maior parte das equipas não é isso que pretendem, limitando-se a juntar as linhas à frente da sua área, abdicando de jogar e forçando os dragões a abusar do momento em que são menos fortes, que é a organização ofensiva.
O grão de areia nesta explicação está no facto de o Sp. Braga também não ter tido qualquer interesse em jogar a partir do minuto em que ficou reduzido a dez, por expulsão de Artur Jorge. E mesmo assim o FC Porto jogou a bom nível. É verdade que havia Brahimi e Corona ao mesmo tempo ou que Layun dá mais qualidade no ataque do que Alex Teles, mas isso não me parece suficiente para explicar a diferença entre o FC Porto de qualidade que se viu frente a Benfica e Sp. Braga e a equipa apática e infeliz que se mostrou em Setúbal ou no Restelo. Aqui chegado, a melhor explicação que encontro tem a ver com a motivação do grupo. Que nos jogos com outros grandes aparece bem focado e nos restantes entra a achar que as coisas acabarão por se resolver mais cedo ou mais tarde. Isso só pode querer dizer que a mensagem não está a chegar devidamente ao balneário. E que a Nuno não basta substituir o marcador. Porque é improvável que lá chegue a fazer mais desenhos.