Último Passe 

2016-12-02
Benfica da confiança à fatalidade iminente

Dentro de todo o equilíbrio com que indiscutivelmente analisou a derrota do Benfica no Funchal, frente ao Marítimo, Rui Vitória disse não aceitar que alguém viesse considerar que os donos da casa tinham tido o domínio do jogo. “Não posso deixar que se diga que o Marítimo foi a melhor equipa”, sentenciou. São duas coisas diferentes, porém. Claro que o Marítimo não teve o domínio de jogo – nem o queria, de resto. Mas nunca devemos estar à espera que quem quer seja na nossa Liga precise ou procure esse domínio de jogo quando quer ganhar a um dos grandes do futebol português. Foi o caso hoje, num jogo cuja chave foi a troca da confiança pelo sentimento de fatalidade iminente que a sucessão de finais provocou nos encarnados.

Usando a expressão também hoje elaborada por Nuno Espírito Santo, na antevisão do FC Porto-Sp. Braga, o Marítimo teve uma ideia para o jogo e defendeu-a como podia. A ideia não era atraente, não leva gente aos estádios, no final aproximou-se perigosamente do anti-jogo – como se aproximam todos os jogos em que os pequenos estão quase a bater o pé aos grandes, ainda que os adeptos achem que isso só acontece aos clubes deles – mas deu indiscutivelmente mais resultado do que a abordagem ingénua e passiva desta mesma equipa ao jogo na Luz, há dias, onde encaixou 6-0 do Benfica. Dir-me-ão que o ideal está no meio. Que bom era que os pequenos conseguissem sacar pontos aos grandes limitando-se a perder a passividade mas mantendo a positividade. E eu até concordo. Mas para tal precisaríamos de ter uma Liga mais equilibrada em todos os aspetos, a começar pelos meios disponíveis a todos.

O Marítimo ganhou ao Benfica por várias razões, sendo que a estratégia de perda de tempo no final foi apenas uma delas. Antes disso houve uma entrada estrategicamente muito bem conseguida, reduzindo os espaços que os tricampeões nacionais costumam utilizar e criando até mais ocasiões de golo do que eles durante a primeira parte. Depois houve também o aproveitamento da pressão a que vem sendo repetidamente submetido um Benfica que salta de final em final a cada semana, seja na Liga ou na Europa. Se por um lado jogos houve já recentemente em que a equipa de Rui Vitória podia ter feito um resultado pior, tendo acabado por ganhá-los no detalhe, graças à confiança que se monta em cima da sucessão de bons resultados – aquilo a que genericamente se chama “estrelinha de campeão” mas que é muito mais do que isso – acaba por ser normal também que, confrontada com uma semana na qual não podia falhar, ela vacile e se deixe diminuir pelo mesmo sentimento de fatalidade iminente que afetou o Sporting de Jesus na Primavera passada.

A diferença, aqui, vê-se no dia seguinte. Muito do que é feito este Benfica se verá já na terça-feira e no próximo fim-de-semana, contra Napoli e Sporting. Aumenta a pressão, aquece a Liga.