Último Passe 

2016-12-01
A resposta dupla de Vitória às lesões

Quando Rui Vitória afirma que o Benfica “funciona como um todo e não por departamentos” está a fazer o mesmo que o goleador que marca um “hat-trick” e vem a seguir dizer que não o conseguiria sem a ajuda dos companheiros ou o mesmo que o defesa-central que, após uma derrota pesada, se justifica dizendo que a missão de defender é de toda a equipa e não apenas da linha mais recuada. Isto é: pode até ter alguma razão, que as lesões não são só culpa dos médicos – mesmo daqueles médicos vistos na perspetiva mais alargada em que o futebol de hoje os transformou –, mas está sobretudo a querer ser politicamente correto e provocador ao mesmo tempo. O que não é nada fácil.

O rendimento de uma equipa de futebol depende de muitos fatores. Da categoria dos seus jogadores, da qualidade do treino que fazem, da capacidade do treinador para os juntar e formar um coletivo forte, obedecendo a uma ideia de jogo coerente, da forma como o mesmo treinador desenha estratégias para os levar à vitória, mas também daquilo que a estrutura auxiliar faz para que os jogadores se sintam bem, focados naquilo que importa, da capacidade de resposta de massagistas ou médicos, da perspicácia dos scouts enviados a fazer relatórios acerca dos adversários, do apoio dos adeptos, do acerto das equipas de arbitragem, das condições meteorológicas… E podia ficar aqui até amanhã, nem que fosse para dizer o seguinte: dizer que dentro de uma equipa não há departamentos é errado. Claro que há. E que uns funcionam melhor do que outros. Em todas as equipas. O Benfica não é exceção.

O que Rui Vitória pensou ao dizer aquilo foi que não vai entregar na praça pública quem quer que seja nesta cadeia que não estiver a funcionar da melhor maneira. Que tudo é analisado, que ele como chefe da equipa tem a missão de assegurar a melhor forma de funcionar e lidará internamente com o que estiver a funcionar pior. Por que não o disse assim? Porque assim não passava a mensagem que queria. Aquele “eu não ando aqui há dois dias” tinha múltiplos destinatários. Os seus jogadores, que podem até perder a crença no funcionamento no departamento médico e de planificação de treino, mas sobretudo os que estão fora do clube. Foi a forma que Rui Vitória encontrou para ser, ao mesmo tempo, politicamente correto e provocador. Porque com este alívio para a bancada, lançou no ar a suspeita de que as notícias segundo as quais Luís Filipe Vieira não estaria satisfeito com o departamento médico podiam ter sido plantadas com o intuito de desunir o Benfica.

Se o foram ou não, não sei dizer. Mas sei que nada funcionaria tão bem como ter o próprio Luís Filipe Vieira a dizê-lo de viva voz e a reiterar a sua confiança nos contestados. Mesmo que isso fosse assim como ver Pinto da Costa renovar nesta altura contrato com Nuno Espírito Santo. E se não o fazem, um nem o outro, por alguma razão será.