Último Passe 

2016-11-26
O dilema da qualidade na quebra do FC Porto

Os 340 minutos de futebol que o FC Porto leva sem marcar golos desde que Diogo Jota faz o 1-0 frente ao Benfica, no Dragão, há três semanas, chegam para justificar o ar resignado com que Nuno Espírito Santo se apresentou hoje na sala de imprensa do Restelo, após o empate com o Belenenses. O resultado foi mau, porque deixa os dragões dois pontos atrás do Sporting e pode levar ao aumento da desvantagem face ao Benfica para sete pontos já no domingo. E foi flagrante a diferença no olhar do treinador face à chispa confiante que se lhe tinha visto, por exemplo, após a vitória por 3-0 sobre o Arouca, enquanto desenhava para a plateia de jornalistas os pilares em que queria ver a sua equipa assentar o jogo. Hoje não faltou comunicação, compromisso ou cooperação. O que mais faltou foi qualidade.

O que mudou desde esse jogo com o Arouca? Ou desde a muito boa exibição contra o Benfica, há três semanas, onde a qualidade ficou à vista de todos? Estas são perguntas com respostas diferentes. As diferenças entre o FC Porto de todos os dias e o FC Porto que encostou o Benfica atrás têm a ver com fatores tão díspares como a motivação dos jogadores para um clássico ou um maior investimento do treinador no delinear da estratégia. O jogo com o Benfica, com variantes interessantes, como a derivação de Oliver para a meia-esquerda, onde com Alex Telles e Otávio foi capaz de tapar a saída a Nelson Semedo e desequilibrar o Benfica, teve dedo de treinador. Tanto na forma como o FC Porto subjugou o tricampeão nacional como mais tarde na forma como lhe permitiu vir à procura do empate, quando tirou do campo quem tinha capacidade para ter a bola. O jogo com o Arouca foi diferente: o FC Porto fez uma muito boa exibição sobretudo porque aquele que é o ponto fulcral do “jogar à NES” – a reação forte à perda da bola – chegou para quase impedir o opositor de sair dos últimos 30 metros. Começando muitas vezes a atacar ali à frente, asfixiou o adversário, dando o mote para justificar uma ideia recorrente acerca deste FC Porto: bom não é ter a bola; bom é que o adversário a tenha, para poder recuperá-la em condições de o surpreender na transição ofensiva.

O problema coloca-se quando a frescura física e mental dos jogadores envolvidos nessa pressão não é a ideal ou quando o adversário tem mais categoria e consegue sair da teia, como fez o Belenenses hoje. Aí, o jogo é transportado para outro segmento: o da qualidade. E aqui, o FC Porto não tem conseguido fazer a diferença com os onze que entram nem com as alternativas. Ainda hoje se viu: Depoitre por Jota, para dar peso na áera e tentar superar as condições meteorológicas adversas com um jogo mais direto; André André por Oliver, talvez para ganhar intensidade de pressão, mas seguramente não capacidade para desequilibrar; e Varela por Otávio, quem sabe se para ganhar largura e um jogo mais retilíneo, ainda que com a consequência natural de, sem Oliver e Otávio, a equipa sentir ainda mais a falta de um médio que lhe dê qualidade em ataque posicional, como seria por exemplo Ruben Neves. A verdade é que nenhuma resultou e que o olhar pesado de Nuno Espírito Santo não faz prever que ele venha a ser agora tão claro como foi na semana passada, quando disse que a falta de golos ia deixar de ser assunto.