Último Passe 

2016-11-24
As várias formas de a Liga Europa ser importante

O empate do Sp. Braga na Bélgica, arriscando vir a fazer depender a continuidade na Liga Europa do resultado frente ao poderoso Shakthar Donetsk de Paulo Fonseca, na última jornada da fase de grupos da prova, não pode ser visto apenas à luz das declarações do diretor financeiro do Benfica, Domingos Soares Oliveira, que veio protestar contra os prémios insignificantes da competição quando comparada com a Liga dos Campeões. Disse Soares Oliveira que o dinheiro que se ganha na Liga Europa é tão pouco que nem os clubes portugueses a levam a sério. Mas nem todos podem pensar assim. Aliás, nem o Benfica devia pensar assim.

A razão do dirigente benfiquista parece estar bem à vista, por exemplo, na carreira do Inter Milão, ontem matematicamente afastado dos 1/16 de final da segunda competição da UEFA depois de somar frente aos israelitas do Hapoel Beer Sheva a quarta derrota em cinco partidas, num jogo em que Stefano Pioli trocou cinco jogadores relativamente ao onze que empatou no fim-de-semana com o Milan. Para o Inter, a Liga Europa vale pouco mais de zero, porque o prize-money que ali pode alcançar não faz nenhuma diferença no orçamento da sociedade. Soares Oliveira assenta ainda o que diz na experiência do próprio clube português, que com Jorge Jesus chegou a duas finais da Liga Europa, depois de fracassar na Champions, mas colocando sempre a Liga interna à frente e poupando jogadores até à fase decisiva da competição internacional. Aliás, o próprio Jesus parece ainda pensar assim, não tivesse ele repetido depois da derrota com o Real Madrid que o Sporting tem de se afirmar primeiro em Portugal, para depois poder andar na Europa.

Os prémios monetários que a UEFA paga pela progressão na Liga Europa são, na verdade, escandalosamente mais baixos do que na Champions. Nisso, Soares Oliveira tem razão. Se conseguir o segundo lugar no grupo, o Sp. Braga irá ainda buscar um valor na ordem do milhão de euros (um pouco mais se o fizer ganhando ao Shakthar, um pouco menos se se apurar empatando ou até perdendo o último jogo). Depois disso, cada eliminatória vai valendo mais à medida que a prova se aproxima do fim: 750 mil euros por chegar aos oitavos-de-final, um milhão para atingir os quartos, 1,6 milhões pelas meias-finais, mais 3,5 milhões se for finalista vencido ou 6,5 milhões se ganhar a decisão. Para uma equipa como o Sp. Braga, atenção, esses valores já fazem diferença. Aliás, já a fizeram para o Benfica nos anos em que chegou às finais. E não apenas pelo que pesaram na realização orçamental. É que a partir de certa altura os jogadores ganham visibilidade e tornam-se alvos mais apetecíveis no mercado, o que não é despiciendo para clubes de um país periférico e sempre a precisar de realizar mais-valias com transferências, como são os portugueses. E, mesmo que o Benfica tenha esse problema resolvido através da parceria que estabeleceu com Jorge Mendes, até à recente alteração das regras de escalonamento das equipas para o sorteio, privilegiando os campeões dos países mais bem colocados no ranking da UEFA, foi em grande parte aos pontos que foi somando na Liga Europa que os encarnados ficaram a dever as suas sucessivas colocações no Pote 1 da Champions e os grupos menos complicados que tiveram de enfrentar nesta competição.

É também por isso que o apuramento para a fase seguinte da Liga Europa é tão importante para o Sp. Braga e até para o Sporting, que por ele vai lutar em Varsóvia, sendo um mal-menor para Benfica e FC Porto, que ainda podem continuar na Liga dos Campeões mas para quem a Liga Europa não pode ser uma hipótese desprezível. Por mais que os prémios não cheguem para virar a cabeça de quem faz as contas todos os semestres.