Último Passe 

2016-11-23
Expoente da bipolaridade no empate de Istambul

Que este é um Benfica cheio de contradições, já aqui foi escrito vezes sem conta. Mas o empate frente ao Besiktas em Istambul, após estar a ganhar por 3-0 a meia-hora do fim, foi o expoente máximo da bipolaridade encarnada, da forma como esta equipa é capaz de alternar o melhor com o pior. O melhor, com as armas do costume, durou uma hora e devia ter chegado perfeitamente para sentenciar o apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O pior, na incapacidade para controlar um jogo quando deixa de ter a bola, adiou tudo por duas semanas e cobriu a última jornada do grupo de incerteza, com a hipótese de Benfica e Napoli se defrontarem quase como se fosse em eliminação direta.

O futebol está cheio de clichés que este Benfica desmente a cada vez que entra em campo. Rui Vitória tem muitos jogadores velozes na frente e para muitos isso faria todo o sentido numa equipa especializada em contra-ataque e ataque rápido, mas a rapidez de pernas e de decisão de muitos destes elementos transforma este Benfica numa máquina a jogar em ataque organizado, primeiro fixando as linhas defensivas adversárias no local onde têm de estar só para poder depois dinamitá-las. Foi a isso, que aliás já se vira nos 6-0 ao Marítimo, que se assistiu no arranque do jogo de Istambul e na forma como o Benfica chegou a 3-0. Depois, Vitória tem muita gente forte na reação à perda da bola, o que permite à equipa muitas recuperações altas, e devia transformar o Benfica numa máquina defensiva. E a verdade é que, na maior parte dos casos, isso acontece. Só que, fortíssimo em transição defensiva, na definição desse primeiro momento de pressão, este Benfica sofre essa reação inicial falha e a equipa se vê obrigada a fazer duas coisas: a passar mais tempo sem a bola e a abusar do momento de jogo que menos lhe agrada, que é a organização defensiva a qual todas as equipas que passam mais tempo sem bola se vêem obrigadas a recorrer. Aí, já se lhe notam lacunas de preenchimento de espaços.

Claro que no empate de Istambul há erros à mistura: nem outra coisa seria possível quando se fala de uma recuperação de 0-3 para 3-3. Há erro de Lindelof na forma como concede o penalti que origina o segundo golo turco, há deficiências de agressividade no ataque à bola no golo do empate, como há também um erro de Rui Vitória na forma como, trocando Guedes por Samaris, leva a equipa para onde ela é menos forte – para trás. Guedes é uma das chaves do comportamento defensivo do Benfica na frente e apesar de toda a sua inteligência tática, Pizzi corre menos e não condiciona os adversários como ele faz. Tendo em conta que todas as equipas atacam e defendem com onze, a troca de um avançado por um médio defensivo não leva necessariamente a que uma equipa defenda melhor – leva, isso sim, a que ela defenda noutra zona. E essa troca de zona de foco defensivo custou caro ao Benfica.