Último Passe 

2016-11-21
As deserções e as apostas firmes

Benfica, Sporting e FC Porto têm todos, esta época, uma jovem coqueluche. E não há como não ficar entusiasmado com o rendimento de Nelson Semedo, Gelson Martins e André Silva, as melhores notícias do futebol português nesta época. Por indiscutível mérito próprio e dos treinadores que neles apostaram, mas também – se calhar sobretudo – de quem desenhou os plantéis sem consagrados que viessem atrasar a sua natural imposição. Seriam os mesmos jogadores se Maxi Pereira e André Carrillo não tivessem desertado? E se Aboubakar não tivesse sido forçado ao exílio na Turquia? Duvido.

Sempre achei que não há treinadores com vontade de apostar na juventude e outros menos propensos a isso. Todos os treinadores querem o mesmo, que é ganhar. Jorge Jesus, o treinador que o Benfica terá deixado cair por não querer abraçar o novo paradigma de aposta nos miúdos do Seixal, está agora a jogar reiteradamente com Ruben Semedo e Gelson Martins no Sporting, remetendo para o banco consagrados como Douglas ou Markovic. É por isso que sempre desconfiei dos que o acusavam de ter deixado que se perdessem talentos como Bernado Silva, André Gomes ou João Cancelo, todos eles hoje na seleção nacional, mas transferidos pelo Benfica antes de terem tido sequer a oportunidade de se afirmarem na equipa principal. Jesus foi bruto na forma como tentou matar os sonhos destes jovens, com a famigerada frase do “têm de nascer dez vezes”? Claro que foi. Jesus é bruto, ponto final. Já o tinha sido no passado e voltará a sê-lo no futuro. Faz parte da personagem que ele encarna. Mas daí a ser o único responsável pelo facto de aqueles três internacionais nunca se terem afirmado na Luz já vai uma distância que me recuso a percorrer.

Vejamos o caso de Cancelo, atualmente titular na lateral direita da seleção, depois de quase ter passado diretamente do Benfica B para o Valência. Cancelo pouco jogou no Benfica porque à sua frente estava Maxi Pereira. E agora olhemos para Nelson Semedo, que do meu ponto de vista é até superior a Cancelo, sobretudo na forma como defende. Seria ele o jogador que é se Maxi tivesse ficado no Benfica em vez de assinar pelo FC Porto? Claro que não. Porque lhe faltaria aquilo que faz verdadeiramente os grandes, que é a competição. A verdadeira mudança de paradigma no Benfica, o que permitiu nos últimos doze meses a afirmação de jovens como Renato Sanches, Nelson Semedo, Gonçalo Guedes ou Lindelof, tem mais a ver com a ausência de alternativas indiscutíveis no plantel – quase sempre por causa de lesões – do que com a mudança de treinador. Claro que, até pelo seu percurso ligado à formação, Rui Vitória trabalha melhor os miúdos do que Jesus, transmite-lhes uma confiança que este nunca seria nem alguma vez será capaz de transmitir. E isso também conta. Mas nem Nelson jogaria tanto se houvesse Maxi nem nenhum dos outros estaria hoje onde está sem as ondas de lesões que lhes deram as primeiras oportunidades.

O mesmo vale, aliás, para Gelson Martins. Estaria Gelson onde está se Carrillo não tivesse querido mudar para o Benfica? Claro que não. Carrillo era no início da época passada o maior desequilibrador do plantel do Sporting e, mesmo tendo ele afirmado em entrevista que Gelson era o miúdo com mais talento que alguma vez tinha treinado, Jesus faria sempre a equipa com o peruano. Aliás, no íntimo e mesmo que o não diga, o treinador há-de estar convencido de que se Bruno de Carvalho não tivesse imposto o ostracismo a Carrillo a partir do momento em que este se recusou a renovar contrato, teria sido campeão. Afinal, ele tinha sido campeão em 2014/15 no Benfica, com Nelson Semedo na equipa B e Maxi a jogar durante meses, depois de se recusar a renovar. Sem Carrillo, a aposta em Gelson foi tão natural como a de Rui Vitória em Gonçalo Guedes quando se viu privado de Salvio e agora de Jonas. E, por mais hesitante que tenha parecido a primeira época, na qual Gelson terá nascido umas quantas vezes, o extremo é ao segundo ano uma das figuras da equipa e um fixo da seleção nacional.

Nenhum caso será tão paradigmático, no entanto, como o de André Silva. Não se pode acusar José Peseiro de andar desatento aos jovens: foi ele que deu continuidade a João Moutinho, por exemplo, levando-o a jogar uma final europeia com 18 anos. E no entanto, na época passada, depois de dar a titularidade a André Silva, reverteu a aposta antes do clássico com o Sporting, recuperando Aboubakar. Quando lhe pediram para justificar a ausência de André Silva no Europeu, aliás, Fernando Santos até se deu ao luxo de dizer que tinha ido vê-lo ao clássico mas ele não tinha jogado. A administração portista terá encaixado a direta e, para evitar recuos na aposta naquele que pode ser o bastião do portismo nos anos que aí vêm, substituiu-se ao mercado: sem propostas por Aboubakar, mandou-o para a Turquia sem remissão, por empréstimo. E essa foi a forma de o FC Porto e a seleção ganharem o ponta-de-lança que fazia (a ambos) tanta falta.