Último Passe 

2016-11-19
O Benfica e a polémica em que todos têm razão

A forma como o Benfica destroçou o Marítimo serviu a toda a gente menos aos adeptos da equipa madeirense, que têm ali muito com que se preocupar. Serviu aos benfiquistas para mostrarem que a sua equipa está fortíssima: afinal de contas, os 6-0 são sempre um resultado imponente, mais a mais se contra uma equipa do mesmo escalão. E serviu aos portistas e aos sportinguistas para fazerem valer a tese segundo a qual frente ao Benfica a generalidade das equipas de menor dimensão comete erros infantis: os três primeiros golos encarnados nasceram de bolas que os insulares chegaram a ter controladas, dentro ou pelo menos nas imediações da sua área. O que uns e outros ainda não perceberam, no debate permanente e sempre hiperbolizado ao extremo, é que estão a dizer exatamente a mesma coisa.

Dizem os benfiquistas que o Benfica está muito forte e têm razão. A forma como o onze de Rui Vitória parece adormecer os adversários no início do processo ofensivo, com um ritmo propositadamente mais baixo antes de meter as mudanças de velocidade à entrada dos últimos 30 metros, parte as defesas, que estão sempre obcecadas com a diminuição do espaço entre linhas, explorando-lhes as deficiências no controlo da profundidade e da velocidade. Seja por dentro ou por fora, seja no corredor central ou nas alas, o Benfica mete muitas vezes gente com bola atrás da última linha dos adversários e isso resolve-lhe os jogos. Depois, dizem os adeptos rivais que toda a gente parece facilitar a tarefa ao Benfica e, olhando pelo menos para o jogo desta noite, também tiveram razão. Aqui, as razões são duas. Por um lado, a pressão que a equipa de Rui Vitória mete na saída de bola dos opositores convida ao erro. Por outro, a falta de capacidade que estes mostram para tirar a bola das zonas de pressão leva ao reiniciar do processo e a mais uma vaga de ataque do Benfica.

No fundo, a explicação para este Benfica avassalador com os pequenos e mais débil nos jogos com equipas do seu nível escreve-se com uma palavra: investimento. A qualidade do Benfica no processo ofensivo depende de duas coisas: das mudanças de velocidade e da posse de bola. A posse de bola depende de outras duas coisas: da capacidade para a recuperar rapidamente e da qualidade que o adversário (não) tem na sua circulação, de forma a conseguir mantê-la. Quando o adversário consegue, como o FC Porto, ter a bola e iludir esta primeira pressão – e a generalidade das equipas mais fortes têm gente capaz de sair a jogar – transporta o jogo para zonas e momentos nos quais o Benfica investe menos e é capazes de expor as debilidades que esta equipa tem. Por isso, nem o Benfica está uma equipa perfeita e imbatível, nem os adversários perdem os jogos de propósito. E em nome da sanidade do debate, seria excelente que uns o outros compreendessem isso.