Último Passe 

2016-11-17
Qualidade e ritmo acima da motivação

Sempre que um grande defronta um clube de muito menor dimensão em jogo da Taça de Portugal, a conversa mais frequente é acerca de motivação. Da falta de necessidade do treinador do clube mais pequeno motivar os seus jogadores, porque estes estarão já naturalmente espicaçados pela hipótese de se mostrarem a uma audiência muito mais ampla que a normal, mas também da dificuldade do responsável do clube mais forte em focar os seus homens num jogo de resultado previsível e onde estes terão muito mais a perder do que a ganhar. Essa não é, no entanto, a principal variável em campo. Muito mais importantes são a qualidade e o entendimento coletivo, já para não falar do ritmo competitivo ou da confiança que faltam quase sempre aos que aparecem ali como se aquela fosse a sua última praia.

No Sporting-Praiense, o que permitiu aos açorianos ficar dentro da eliminatória durante boa parte da partida – na verdade até ao 3-1, que apareceu a meia-hora do fim – não foi a motivação por defrontar um grande ou por jogar em Alvalade. Foi o entendimento que os seus jogadores mostraram entre si, porque estão habituados a jogar uns com os outros e formam uma verdadeira equipa. Depois, o que permitiu aos leões dar a volta à eliminatória até ao 5-1 final não foi a vontade de mostrar serviço dos nove suplentes habituais chamados ao onze por Jorge Jesus, mas sim a qualidade dos dois titulares (Adrien e, sobretudo, Bruno César) que, por não terem jogado na pausa para partidas de seleções, ficaram na equipa inicial. Porque a motivação, nascida da tal vontade que os suplentes mais habituais podem ter de justificar mais chamadas à equipa, pode muito bem dar bons ou maus resultados: no Sporting, aquilo de que mais gente vai lembrar-se é de mais um jogo desastrado de Castaignos, com especial relevo para uma trivela que, a meio da segunda parte, mais pareceu saída de uma tarde de convívio entre solteiros e casados.

Quer isto dizer que fazem mal os treinadores que, face a jogos desta natureza, mudam o onze de forma radical? Não. A questão é que os jogadores chamados para este tipo de jogos não são – não podem ser – tão maus como aparentam. Castaignos, por exemplo, tem uma história atrás dele e, por muito que a mais recente seja negra, tem de ser melhor do que o que se viu. Ou do que os dois golos de André, depois de o substituir, podem ajudar a fazer crer. O que lhe falta – a ele, como a Douglas, a Esgaio, a Jefferson ou a Alan Ruiz, por exemplo – é ritmo competitivo. E a confiança que nasce nele. Essa, porém, não vai aparecer por decreto.