Último Passe 

Crédito: FPF
2016-11-14
O problema que Santos não quer resolver

A seleção nacional completou com a vitória frente à Letónia o último compromisso previsto para este ano de 2016, dando a sensação de que tem tudo para ganhar sempre até à decisiva partida com a Suíça, daqui a onze meses, na qual definirá se vai direto ao Mundial de 2018 ou se tem de passar pelo play-off. O jogo do Algarve não foi brilhante, pode até defender-se que os 4-1 finais, sendo justos, não espelham a incerteza de que o resultado chegou a rodear-se, mas basta olhar para a totalidade de recursos de que esta equipa dispõe para se entender que ela nunca pode ficar fora do Mundial. Não é por ser campeã da Europa. É por ter tantas e tão boas soluções para quase todos os problemas que possa vir a enfrentar. Todos menos um: a necessidade de se transformar numa equipa avassaladoramente ofensiva quando a oposição baixa de nível mas é, mesmo assim, suficientemente competitivo para criar problemas, como a Letónia ou a Hungria.

O jogo com a Letónia, quem acabou por ajudar mais a resolvê-lo foi Quaresma, com os dois cruzamentos para os dois golos com que a equipa respondeu de imediato ao problemático empate dos letões, a 20 minutos do fim. Mas é inevitável reparar que a seleção acabou o jogo com João Cancelo, André Silva e Gelson, todos eles jovens que não estiveram no Europeu de França e que demonstram que a renovação continua a ser feita e está assegurada pelo filão permanente que são os sub21 de Rui Jorge. Além disso, em campo também estiveram Guerreiro, William, André Gomes, João Mário ou Renato Sanches, todos eles ainda com muitos anos pela frente na equipa nacional. Ronaldo pode até ter noites menos felizes – e apesar dos dois golos e das duas bolas nos ferros o jogo de ontem esteve longe de ser perfeito para ele – que a equipa acaba por encontrar o caminho e chegar às vitórias.

Pela frente, Fernando Santos tem agora quatro meses sem competição até ao jogo com a Hungria, uma espécie de primeira pré-eliminatória para definir em que condições a equipa chega à decisão final com a Suíça (a segunda será a viagem a Budapeste, que os suíços até já venceram). E apesar de eu estar convencido de que os suíços ainda vão escorregar pelo menos uma vez até ao último dia (e tanto a receção à Hungria como as duas saídas às Ilhas Faroé e à Letónia podem servir), o fundamental mesmo é a equipa nacional entender que não pode falhar e precisa de repetir o percurso sem faltas que completou na última qualificação depois do arranque em falso que foi a derrota com a Albânia. Desta vez a derrota foi frente ao outro candidato à qualificação e isso complica as contas, mas a maior preocupação do selecionador nem será provavelmente essa. Será sim o facto de esta equipa nem sempre estar a conseguir jogar coletivamente com a qualidade que os seus componentes poderiam justificar e de numa fase de qualificação nem sempre poder impor a estratégia do contra-futebol que lhe valeu na fase final do Europeu.

Olhando para o plantel jogador a jogador, Fernando Santos tem mais de duas soluções de qualidade para cada posição e poderia até sentir-se tentado a construir uma equipa com uma filosofia diferente. Uma equipa mais dominadora, que soubesse corresponder aos pedidos de maior “velocidade” e predominância atacante, seria seguramente mais eficaz numa fase de qualificação. E a verdade é que Portugal tem jogadores para a construir. Depois corria era o risco de se transformar numa espécie de Inglaterra, a melhor equipa do Mundo em fases de apuramento e uma desilusão permanente nas fases finais, porque não sabe mudar o chip quando a oposição sobe de nível. E isso também não seria nada bom.