Último Passe 

2016-11-09
Figo, Ronaldo, o negócio e o amor à camisola

Algo de muito estranho se passa em Portugal para que, com dois vencedores da Bola de Ouro pela frente, toda a gente se preocupe sobretudo em saber, de um, se acha que o Sporting pode apanhar o Benfica na classificação da Liga e, do outro, que acaba de assinar uma renovação de contrato que o deixa em Madrid pelos próximos anos, se tenciona voltar a jogar no Sporting.

Sei que Rui Costa estabeleceu um precedente invulgar, voltando ao Benfica depois de uma longa carreira em Itália – e não ganhou a Liga nesse regresso, que por isso não foi particularmente feliz nem para ele nem para o clube – e que quase todos os portugueses olham para o futebol não como um desporto, não como um negócio, mas como uma guerra de trincheiras. Como um nós contra eles. Um podemos nem ganhar nada com isso, mas depois de voltar do estrangeiro o craque x ou y provou que gosta é de nós e não deles. Como se isso importasse alguma coisa.

Questionado sobre o regresso eventual ao Sporting, Ronaldo – para quem o futebol é uma profissão, na qual ele é parte fundamental de um mega-negócio, conforme se via só pelo facto de as perguntas serem parte da apresentação das novas chuteiras do craque – disse o que podia dizer. “Quem sabe aos 41 anos…” Essa é uma pergunta à qual, em bom rigor, ele neste momento não pode responder. Se o Real Madrid se fartar dele, se ele se fartar do Real Madrid, se não houver mais nenhum clube dos campeonatos de topo a querer contar com ele, se não houver nenhuma reforma num qualquer “Eldorado” onde ele possa impulsionar o negócio. São muitos ses. Bruno de Carvalho já disse que gostaria de o ter de volta, ele certamente também acharia graça à ideia, mas essa não é sequer uma questão atual ou uma questão à qual se possa responder de forma clara com um mínimo de honestidade intelectual.

Inspirada na atualidade é a pergunta feita a Figo acerca da classificação da Liga, quando o antigo Bola de Ouro apresentava uma app de telemóvel destinada a ajudar na captação de talentos. Acha que o Sporting ainda consegue apanhar o Benfica? Figo lá balbuciou que sim, que é possível – e para o saber não é preciso ter sido Bola de Ouro – e que para bem dos sportinguistas era bom que isso sucedesse, mas certamente terá sido, pelo menos, surpreendido com a temática. Figo já não joga há uns anos e o futebol, para ele, já é mesmo só negócio. E se estivesse preparado para aquela pergunta até podia ter dito que sim, que o Sporting pode apanhar o Benfica na Liga, mas só porque o acordo que assinou com os encarnados para canalizar os jovens talentos captados pela sua app para o Seixal ainda não está em vigor. Fazia publicidade ao produto que estava a promover e respondia ao nonsense com nonsense.