Último Passe 

2016-11-08
A formação e o modelo de negócio do futebol

As palavras de Nuno Gomes e Rui Costa acerca do negócio da formação, no “web summit”, casam melhor do que se pensa com as declarações do jornalista italiano Pippo Russo, em mais uma entrevista que este deu para promover o seu mais recente livro acerca do universo de Jorge Mendes. No fundo, ambos defendem a mesma coisa: um modelo de negócio que permita aos clubes florescer, tanto os ricos como aqueles que, como é o caso dos portugueses, vivem das mais-valias feitas com transferências no mercado internacional.

A formação em futebol já não é o que era há uns 20 ou 30 anos, quando o FC Porto anunciava aos quatro ventos o primado do “jogador à Porto”, ganhando campeonatos com uma equipa cheia de futebolistas formados em casa. A globalização e a identificação dos jovens jogadores como um negócio em potência trouxeram desafios que Nuno Gomes e Rui Costa identificaram bem na conferência de hoje. Primeiro: por estes dias, o desporto para jovens paga-se. Segundo: por estes dias, os jovens com real talento nos clubes de mercados periféricos são detetados muito cedo e saem para os países ricos antes de poderem dar muitos títulos a ganhar a quem os forma. O modelo de negócio está no equilíbrio, na capacidade para, primeiro, iludir o crivo do poderio financeiro dos pais e, depois, fugir durante algum tempo à pressão dos grandes clubes para terem o próximo Ronaldo.

Nuno Gomes deu o exemplo de Gonçalo Guedes e Bernardo Silva, dois jovens talentos cujos pais tiveram de pagar para que eles pudessem jogar nas escolas do Benfica. Ambos são já internacionais A, tendo o segundo saído por muito dinheiro para o Mónaco antes sequer de se afirmar na equipa principal do Benfica. Ora, o que teria sucedido se os pais destes jogadores não tivessem podido pagar para eles jogarem nas escolas do Benfica? Ter-se-ia perdido o talento? Certamente que não. Mas o Benfica iria perder o negócio. E é nesta busca de equilíbrio que está o segredo: em não impedir que os melhores acedam à melhor formação e em impedir, aí sim, que vão embora antes de contribuírem para a conquista de títulos. Porque só assim os clubes portugueses poderão cumprir o desejo de Rui Costa, que quer vê-los a competir no campo com os grandes de Inglaterra ou Espanha.

Mas onde entra aí Pippo Russo? Na segunda parte da equação. Diz o jornalista italiano que, estando nas mãos dos grandes agentes e dos fundos de investimento, os clubes não ganham dinheiro. Que ganham nas transferências que fazem, mas como têm de manter o carrossel em funcionamento comprando igualmente caro, essa mais-valia esvai-se. Se olharmos para as dificuldades dos clubes portugueses em amortizar passivo, apesar das vendas que têm feito, teremos de concluir que tem alguma razão. Porque para vender caro, um clube tem de manter satisfeita a clientela. Ainda assim, estou convicto que nem um nem o outro lado da barricada no que respeita à relação entre clubes e fundos encontrou ainda a pedra filosofal da transformação da formação em negócio. Nem o Sporting, que rejeita fundos e super-agentes, não gasta assim tanto, mas depois também não tem a mesma facilidade de escoamento dos seus formandos no mercado internacional, como se viu nas propostas modestas que lhe chegaram pelos seus campeões da europa. Nem o Benfica ou o FC Porto, que trabalham com os super-agentes e os mega-fundos de investimento, conseguindo vendas milionárias mas sendo depois também forçados a fazer compras muito acima do preço de mercado.

Esse equilíbrio, estou convicto, só chegará quando houver verdadeira regulação dos mercados. Mas, seja por razões políticas ou estratégicas, a FIFA, para já, não parece muito para aí virada.