Último Passe 

2016-11-07
Cinco pontos para três clássicos

Os clássicos têm sempre mensagens para quem as quiser ler. O de ontem, no Dragão, trouxe várias, mas a principal é que, continuando a ser o favorito, o Benfica ainda não pode cantar vitória na Liga. Não só porque não conseguiu ganhar e ampliar a vantagem sobre o FC Porto, caso em que o resto da época poderia ser a coisa mais parecida com um passeio de que há memória, mas também porque viu reduzida a que tem sobre o Sporting. Ainda são cinco pontos, em cima dos quais os encarnados podem fundar um favoritismo muito legítimo para chegarem ao tetracampeonato, mas a questão é que, pela frente, os tricampeões ainda têm mais três clássicos. E o de ontem voltou a mostrar como sofrem neste tipo de ambientes.

A verdade é que o clássico mostrou um FC Porto perfeitamente capaz de se bater com o Benfica. Tivesse a equipa de Nuno Espírito Santo esta intensidade em todos os jogos da Liga e seguramente não teria empatado com o Tondela ou com o V. Setúbal e estaria em melhores condições para discutir o campeonato. Corona deu largura e repentismo, aliviando a pressão sobre Jota; André Silva conseguiu estar sempre em jogo, mostrando-se o jogador adulto que o BI diz que ainda não pode ser; e Oliver encheu o campo, a jogar atrás e à frente, a defender e a atacar sempre com qualidade. A questão, aqui, é sempre a de saber quando é suficiente e quando é preciso continuar a carregar. Contra o Benfica, com a motivação certa, a equipa portista deu provas de qualidade e encostou o adversário às cordas. Fez um golo, podia ter feito mais um ou dois, mas fracassou duas vezes. Falhou a finalizar quando se lhe pedia que fechasse o jogo e falhou no volume de jogo, quando achou que era altura de proteger o resultado mais perto da sua baliza e não de se manter a jogar alto, como até aí. E essa demonstração de fraqueza, o Benfica não a perdoou.

Porque este Benfica pode sofrer sempre que defronta adversários do mesmo calibre, mas tem uma alma que só a conquista reiterada de títulos pode conferir a uma equipa. Há quem lhe chame estrelinha de campeão e dê à coisa ares de fortuna, mas nada podia estar mais errado: é nestas alturas que me lembro do que acontecia vezes sem conta ao Manchester United de Alex Ferguson, especialista em golos nos descontos. Mais. Lembram-se do empate em Alvalade, a uma bola, com um golo de Jardel nos descontos a dar ao Benfica de Jesus um ponto depois de ser dominado durante quase todo o jogo pelo Sporting de Marco Silva, lançando a equipa para o bicampeonato de 2015? No Dragão, ontem, passou a repetição desse filme. Ou a reprise do filme que teve como ator principal Kelvin, a dar ao FC Porto de Vítor Pereira o tricampeonato frente ao Benfica, em 2013.

Rui Vitória continua a ter de gerir as constantes lesões – além de Jonas e Rafa, ontem faltaram-lhe Fejsa, Grimaldo e faltou-lhe Luisão a partir dos 20 minutos – mas continua a ser capaz de ir ao banco buscar alternativas para obter resultados. Lisandro, por exemplo, saltou do banco para ser o melhor jogador do Benfica: a ninguém como a ele assentaria tão bem o golo do empate. É certo que Samaris não confere à equipa a mesma competência de Fejsa nos momentos defensivos, mas até foram dele as primeiras duas situações de perigo no ataque: e na maior parte dos jogos, o que o Benfica tem de fazer é atacar. Os clássicos fogem à regra e é nesses que a equipa mais dificuldades tem sentido: o Benfica de Rui Vitória tem uma vitória e três derrotas com o Sporting e um empate e duas derrotas com o FC Porto, mas mesmo assim foi campeão e segue na frente da classificação, com vantagem folgada sobre os rivais. Cinco pontos talvez não lhe cheguem para mais três clássicos, mas a seu favor a equipa do Benfica terá sempre as outras 21 jornadas. É que nessas não costuma falhar. FC Porto e Sporting, por seu turno, não têm podido dizer a mesma coisa.