Último Passe 

2016-10-31
Vitória, Jesus e as opções políticas

Há um mundo inteiro de convicções entre Rui Vitória e Jorge Jesus. E são elas que ajudam a explicar os momentos vividos por Benfica e Sporting desde que os dois se enfrentam com estes treinadores no banco. Os adeptos só querem saber quem é melhor, mas isso é como perguntar a um analista político o que é melhor: a esquerda ou a direita? Responder a isso é entrar no domínio do gosto, da opinião. O melhor, no futebol, é sempre quem está à frente. Vitória e Jesus são, isso sim, diferentes, na ideia que têm do jogo e da liderança.

Na época passada, o campeão foi o Benfica: logo, o melhor foi Rui Vitória. Durante toda a época, disse e escrevi que o Sporting tinha um futebol coletivamente mais bem trabalhado e que o Benfica ganhava mais graças ao primado da qualidade individual dos seus jogadores. Os adeptos do Benfica acharam que estava a menorizar o trabalho do seu treinador, mas sempre fui dizendo que não. Ser treinador é ser líder e ser líder é escolher a ideia que mais se adapta a um grupo de homens, fazê-la valer e levar a equipa a acreditar nela e a segui-la. Ao optar por dar uma maior liberdade de escolha aos seus jogadores, Vitória não só ganhou como estava a criar uma equipa que se adaptaria sempre melhor a qualquer eventualidade, um todo orgânico capaz de reagir a tudo. Como na verdade se adaptou e reagiu, por exemplo, à crise de lesões que a assolou neste início de época.

Jorge Jesus é diferente. O futebol que o Sporting jogou na época passada foi sempre um futebol mais bem trabalhado do ponto de vista coletivo. As movimentações ofensivas postas em prática a cada jogo eram fruto de trabalho hiper-detalhista no campo de treinos, feito por um treinador que, ao contrário de Rui Vitória, dá pouca liberdade de escolha aos seus pupilos. Nas equipas de Jesus – já era assim quando ele treinava o Benfica, ou o Sp. Braga, ou o Belenenses – cada jogador tem de saber, ao milímetro, onde tem que estar em cada situação de jogo, para onde tem de correr, se deve pedir a bola ou procurar o espaço… Todas as situações estão previstas e têm uma resposta antecipada. O processo é menos humanizado, os jogadores acabam por transformar-se em peças de uma máquina, com uma função a cumprir. Se a cumprem bem, a equipa joga um futebol altamente mecanizado e eficaz; se falham, todo o coletivo entra em crise.

O problema do método de Jesus é aquele que o Sporting enfrenta neste momento: a máquina perdeu peças fundamentais. O Benfica perdeu mais e mesmo assim ganha? Certo. Mas no Benfica, recordam-se, todo o processo valoriza mais a criatividade, a inspiração dos intérpretes. Falta Jonas? Entra Guedes, que joga diferente, muito diferente, mas o todo acaba por adaptar-se a essa diferença. Falta Gaitán? Entra Cervi, que também joga muito diferente, mas mais uma vez o coletivo acaba por se ajustar. Falta Sanches? Entrou Horta, primeiro, e aqui o coletivo sentiu algumas dificuldades, porque aquilo que Sanches dava à equipa era único e esta sofreu mais para se habituar à perda daquela capacidade de queimar linhas e esticar o jogo. Melhorou com Pizzi, jogador mais experiente, mas também porque o todo-orgânico que compõe a equipa já teve mais tempo para absorver a novidade.

No Sporting, o primado da mecanização coletiva – em nome do qual Jesus usa tantas vezes a primeira pessoa do singular, porque na verdade é ele que desenha os movimentos da máquina – leva a que a equipa sinta mais, não tanto a ausência das peças que se foram, mas a incapacidade das que as substituíram para cumprir exatamente as mesmas funções, para fazerem os mesmos movimentos, quase ao milímetro. Não é tanto uma questão de qualidade como é de compreensão. É por isso que a perda simultânea de Slimani e Adrien – João Mário está a ser bem substituído por Gelson –, a juntar à saída de Teo Gutièrrez no início da época, tem conduzido à incapacidade da máquina para operar em boas condições e a esta sucessão de empates que deixou o Sporting a sete pontos de distância – e por isso um pouco mais longe de poder ser o melhor no final da época.

Aquilo que Jesus tem de decidir agora é se o que está a pensar fazer não é substituir uma roda dentada por uma peça de formato diferente, que nunca encaixará ali, levando a máquina a encravar. Isto é: se os jogadores que entraram alguma vez serão capazes de fazer as movimentações dos seus antecessores ou se deve desenhar uma máquina nova, com outras mecanizações, que estas peças possam cumprir. É por isso que Jesus diz que tem jogadores que ainda estão a fazer pré-época com as competições em andamento, mas a verdade é que esta não é a primeira vez que passa por uma situação destas e que, nas ocasiões de anteriores transferências no último dia de mercado, nunca as suas equipas levaram tanto tempo a readaptar-se.