Último Passe 

2016-10-29
A sete pontos, Sporting obrigado a olhar para dentro

Se os sportinguistas quiserem ser honestos, sobretudo consigo mesmos, reconhecerão que o anti-jogo sempre existiu, que desde que há futebol se falham penaltis, e que a verdade é que a equipa de Jorge Jesus está mesmo a jogar demasiado pouco para poder justificar uma candidatura convincente ao título nacional. Sim, há um ano, depois de perder o dérbi, o Benfica também ficou a uma distância pontual da liderança que parecia impossível de superar – e superou-a. É verdade ainda que nessa altura também o Benfica jogava pouco, se afundava em dúvidas, enquanto que o Sporting voava – como acontece agora aos encarnados. E no entanto o Benfica foi campeão, porque os seus responsáveis souberam olhar para dentro em vez de apontarem baterias a tudo o que os rodeava. Fez, afinal, aquilo que Jesus defendeu antes da visita à Choupana: “Sem desculpas!”

Se deixarmos de lado a partida da Taça de Portugal, contra o Famalicão, o Sporting não ganhou nenhum dos últimos quatro jogos. Segue-se a viagem a Dortmund, da qual vai depender o futuro leonino na Liga dos Campeões. E depois uma jornada fulcral, com a receção ao Arouca em dia de clássico no Dragão, entre FC Porto e Benfica. Correndo-lhe tudo bem, Jorge Jesus poderá continuar a manter esperanças na prova europeia e chegará à 10ª jornada a quatro pontos do líder. O treinador leonino tem, por isso, uma semana para sair desta fase a que chamou segunda pré-época e para encontrar as soluções que devolvam à equipa o futebol que chegou a jogar na época passada. Já aqui escrevi que, mais até do que a lesão de Adrien, o maior problema vivido neste momento pelo Sporting é a falta de Slimani, que deixa a equipa menos capaz em transição defensiva – logo, demorando mais a recuperar a bola e limitando-lhe o número e a zona de início dos ataques – e sobretudo em organização ofensiva, onde as caraterísticas do substituto encontrado (Bas Dost) são radicalmente diferentes e pedem a reformulação quase total do processo.

Reconhecê-lo, admitir que aquilo que este Sporting está a jogar é demasiado pouco se for comparado com aquilo que produziu qualquer equipa de Jesus na última década, será meio caminho andado para encetar o processo da recuperação. A questão é que aquilo que os maiores adeptos de Jesus sempre apontaram – e com razão – como a sua maior virtude, que é a forma coletivamente trabalhada que as suas equipas têm de atacar, acabou por ser o seu maior problema assim que lhe faltaram algumas peças na máquina. Dando aos seus homens mais liberdade para decidirem, num futebol onde o primado do individual é maior, Rui Vitória conseguiu que o seu Benfica encontrasse a coerência interna que lhe permitiu superar várias contrariedades neste início de época, sob a forma de lesões de jogadores importantes. E isso voltou a ver-se na vitória clara, indiscutível e sem história que os encarnados obtiveram contra o Paços de Ferreira, num jogo onde o meio-campo Fejsa-Pizzi voltou a funcionar às mil maravilhas, onde a falta de Grimaldo não constituiu problema e onde Gonçalo Guedes foi outra vez fundamental a jogar atrás do ponta-de-lança.