Último Passe 

2016-10-27
O futebol e o plebiscito a Vieira no Benfica

A mais do que certa reeleição de Luís Filipe Vieira para um quinto mandato como presidente do Benfica não é sequer notícia. Seja porque o trabalho já feito na devolução do clube aos patamares de exigência competitiva no futebol – que é o que interessa aos sócios – está à vista de todos; seja também porque, em consequência disso, Vieira passou pelo segundo ato eleitoral sem qualquer oposição. Nesse aspeto, aliás, Vieira e o Benfica estão a fazer um percurso muito igual ao de Jorge Nuno Pinto da Costa e do FC Porto. E é nisso, mais do que nas “admiráveis manifestações de fervor clubístico” que os presidentes agradecem sempre aos sócios que se dão ao trabalho de ir votar em dias de eleições de lista única, que vale a pena debater em plebiscitos como o de hoje. Porque no futebol, nem a política é política.

Vieira, que já era o presidente mais durável no comando do Benfica – completará 17 anos no final do mandato para que será hoje eleito – foi cinco vezes a votos, duas delas sem oposição. Nas três ocasiões em que alguém lhe disputou o cargo, no entanto, as suas votações foram arrasadoras: 90% contra Jaime Antunes e Guerra Madaleno em 2003; 91% contra Bruno de Carvalho em 2009; e 83% contra Rui Rangel em 2012. É uma realidade muito próxima da experimentada por Pinto da Costa, que no final da época passada foi eleito para um 13º mandato consecutivo à frente do FC Porto, os últimos nove sem qualquer oposição nas urnas. Aliás, o lendário presidente portista só teve um adversário em 34 anos: Martins Soares concorreu em 1988 (menos de 5% dos votos) e em 1991 (20% dos votos). E desapareceu de circulação até que, já neste século, a TSF o descobriu e lhe recolheu declarações de apoio ao trabalho feito pelo atual presidente

Em comum, Pinto da Costa e Vieira têm a recuperação competitiva dos seus clubes. Mais completa a do presidente portista, que cinco anos depois de ser eleito estava a sagrar-se campeão europeu e mundial e a dar entrada em década e meia de hegemonia indiscutível no espaço nacional; mais restrita ao panorama interno a do líder benfiquista, que depois de um título atribulado ao segundo ano de presidência, ganhou quatro Ligas e esteve em duas finais europeias nos últimos sete anos. Fizeram um excelente trabalho, tanto um como o outro, e isso ajuda a perceber como se foram eternizando nos cargos. O mais difícil de entender, porém, é que mesmo assim não apareça ninguém com uma ideia diferente e disponível para se bater por ela. Sim, boa parte dessa abrangência tem a ver com a integração das diferentes sensibilidades no bolo cozinhado para cada ato eleitoral. Vieira, por exemplo, já o tinha feito com José Eduardo Moniz e voltou a fazê-lo agora com Fernando Tavares; Pinto da Costa ter-lo-á feito em tempos com Adelino Caldeira, o aliado que quis aproveitar das candidaturas de Martins Soares.

E é aqui chegado que qualquer teorizador político pode alertar para o perigo que é a falta de massa crítica, o desaparecimento da oposição em qualquer organização. Mas o contraponto, fornecido a cada eleição pelo Sporting, não tem sido o mais feliz. Em 2011, as eleições mais disputadas na história recente do clube, com cinco listas concorrentes e vitória de Luís Godinho Lopes, com apenas 36% dos votos, deram lugar à maior crise competitiva de que o futebol leonino tem memória. E o facto de João Rocha (1973 a 1986) ter sido o último presidente a durar pelo menos uma década poderá ser apresentado como justificação para o declínio competitivo do futebol do clube, que ganhou apenas dois campeonatos nos 30 anos após a saída daquele seu importante líder. No fundo, o que falta explicar é se a falta de oposição leva às vitórias ou se são as vitórias que levam à falta de oposição. Seja como for, o fenómeno faz do futebol um palco único para os admiradores de plebiscitos e dos líderes totais a que eles dão azo.