Último Passe 

2016-10-25
Renato e Patrício são vitórias da seleção

A escolha de Renato Sanches como Golden Boy 2016, pelo jornal italiano Tuttosport, e a nomeação de Rui Patrício entre os 30 finalistas da Bola de Ouro, da revista francesa France Football, têm sido apresentadas ora como mais uma prova da influência da Liga portuguesa, ora como arma de arremesso na guerra entre fanáticos de dois clubes. Mas na verdade não deviam ser uma coisa nem a outra, porque – e sei que isto doerá a muita gente – se os dois chegaram a estas distinções, é à fase final do Europeu que o devem. O que, atenção, não quer dizer que as não mereçam. Pelo contrário.

Há uma especificidade na votação do Tuttosport em Renato Sanches – na verdade, na votação dos jornalistas de toda a Europa que o Tuttosport consultou. É a transferência milionária do jovem médio para o Bayern, a estabelecer uma espécie de tendência, depois da escolha de Martial (também ele transferido por mundos e fundos para o Manchester United) em 2015. É possível que os jornalistas consultados tenham sido influenciados pelos valores das transferências, coisa em que quem me lê sabe que há muito deixei de acreditar, pois a cartelização que os grandes fundos de investimento e os mega-agentes têm imposto ao mercado tem levado a que a fixação dos preços sirva para pouco mais do que o acerto de contas entre eles. Rui Patrício, no entanto, não se transferiu e está na lista dos 30 melhores da Europa do France Football. Pelo muito que fez na excelente época do Sporting na Liga portuguesa ou na efémera passagem pela Liga Europa? Claro que não. Da mesma maneira que a escolha de Renato se deve sobretudo ao impulso que deu à candidatura portuguesa à vitória no Europeu e não à importância que teve no título do Benfica ou à caminhada da equipa de Rui Vitória até aos quartos-de-final da Champions, a presença de Rui Patrício naquele lote de jogadores predestinados tem a ver com o facto de ter sido a última barreira na quase intransponível muralha defensiva da seleção nacional.

Portanto, se o que querem é decidir se as escolhas de Renato Sanches e Rui Patrício são uma maior honra para Benfica ou Sporting, esqueçam. E se o que querem é dizer que afinal a Europa ainda presta atenção à Liga portuguesa, podem também esquecer – ainda que provavelmente devesse fazê-lo. Renato foi o Golden Boy de 2016 porque é um médio com uma potência e mudança de velocidade incrível, com uma alegria contagiante no jogo, porque queima linhas com bola como quase ninguém, seja da sua idade ou mais velho. E isso viu-se no Europeu. Rui Patrício está nos 30 finalistas da Bola de Ouro porque é um guarda-redes seguro, com uma agilidade invulgar para a envergadura física, sobretudo na rapidez de reação entre os postes, e isso também esteve à vista no Europeu. Os clubes são os clubes e infelizmente para todos nós têm andado tão longe de poder influenciar este tipo de votações como perto de orientar as ideias de quem não pensa senão em função de um emblema.