Último Passe 

2016-10-24
A tática por trás da ressaca do Sporting

A quebra evidente de rendimento do Sporting nos últimos jogos tem sido muitas vezes reduzida a fatores demasiado simples, como a ausência de Adrien, as dificuldades de recuperação após os jogos europeus ou a falta de qualidade de alguns novos jogadores. Na verdade, tudo terá o seu peso para explicar exibições tão pobres como a que a equipa de Jorge Jesus assinou frente ao Tondela. No entanto, a razão mais importante é tática e tem a ver, não com a saída de Slimani, mas com o facto de ninguém estar a dar à equipa aquilo que o argelino dava. E mais difícil do que fazer o diagnóstico é encontrar a profilaxia adequada, que no meu ponto de vista só pode passar por Campbell a jogar no corredor central.

É claro que Adrien faz falta, pela intensidade e abrangência que mete no jogo a meio-campo. É claro também que se a equipa faz um jogo de elevada exigência competitiva a meio da semana vai perder velocidade e dinâmica no fim-de-semana seguinte. Mas todas as equipas que andam nas competições europeias vivem com isso e algumas até têm mais lesões – e lesões mais importantes – que o Sporting. Veja-se o caso do Benfica, que perdeu Jonas, o melhor jogador da Liga anterior, numa altura em que também não tinha Mitroglou ou Jiménez. E que teve de passar a viver sem Gaitán e Renato Sanches. O Sporting está sem Adrien e teve de reconstruir-se sem Slimani e João Mário, com Bas Dost a aparecer e Gelson a ganhar preponderância. E a questão é que o todo, a soma das partes, deixou de fazer tanto sentido.

O que caraterizava o ataque organizado do Sporting de Jesus era a facilidade com que jogava por dentro, no corredor central. Ali apareciam os dois pontas-de-lança, mas também Adrien, Ruiz e João Mário, sendo que havia sempre facilidade em criar desequilíbrios ofensivos. Porquê? Porque havia espaço, muito espaço entre as duas linhas defensivas dos adversários para os jogadores do Sporting penetrarem em tabelas rápidas que muitas vezes deixavam um deles na cara do golo. Então o que mudou? Será que os adversários deixaram de colaborar e fecharam esse espaço? Ora achar isso é uma idiotice. Na verdade, os adversários nunca quiseram colaborar, abrindo esse espaço. O que se passava é que as movimentações de Slimani na busca da profundidade, indo buscar muitas vezes a bola nas costas da última linha do adversário, obrigavam esta última linha a recuar vezes sem conta, alargando o espaço entre ela e a segunda linha, formada pelos médios. Era aí que o Sporting jogava.

Sem Slimani – e com um jogador que faz movimentos contrários, de aproximação à equipa, recuando para tabelar com os médios – Jesus podia fazer uma de duas coisas. Ou encontrava uma réplica, um jogador igualmente capaz de esticar o jogo, ou deixava de apostar tanto no jogo interior, preferindo jogar por fora e aproveitar o superior capacidade de finalização de Bas Dost para aumentar a percentagem de jogadas que conclui com cruzamentos. Neste momento, a equipa hesita entre as duas profilaxias. No jogo contra o Tondela, cruzou muito, mas raramente o fez bem ou no momento mais adequado, mesmo quando tinha superioridade posicional e numérica na área – e nesse particular Zeegelaar, autor do melhor cruzamento no jogo com o Borussia Dortmund, foi desastroso. No sábado, aliás, o Sporting procurou vezes demais o labirinto em que se transformou o corredor central: ao espaço entre-linhas do Tondela acorriam Ruiz, Bas Dost, André e até Elias ou Gelson, que neste contexto faria muito melhor em permanecer aberto, para aumentar as possibilidade de combinação na direita que levassem a cruzamentos.

Claro que a equipa pode (deve, aliás) adotar as duas soluções, ser igualmente eficaz no jogo exterior como no interior. Mas para isso tem de dominar melhor cada momento e tomar nele as melhores decisões. O problema é que para isso tem de aperfeiçoar a ideia de jogo e encaixar melhor as peças: o Sporting de 2015/16 tinha um onze encaixado; o desta época ainda não encontrou o parceiro para Bas Dost nem a forma que ele terá de encarar o jogo. Umas vezes joga com Bruno César, outras com Markovic, outras ainda com André, no sábado experimentou até somar Castaignos ao seu compatriota. Olhando para o grupo, vejo duas possibilidades: Bruno César atrás de Dost para jogos em que se quer o bloco mais unido e jogar mais desde trás (FC Porto em casa ou jogos da Champions com Real Madrid e Borussia Dortmund) e Campbell ao lado do holandês nos restantes. Da forma como vejo as coisas, Markovic só pode jogar na ala, onde está condenado a ser suplente de Gelson. Ao sérvio falta presença na área e capacidade de trabalho para jogar no corredor central, onde a pressão em transição defensiva é muito importante. Campbell tem as duas coisas. E até a capacidade de ir à procura da profundidade, como fazia Slimani, dessa forma permitindo que se abra o tal espaço entre as linhas do adversário para que a equipa possa jogar por dentro. Mistério para mim é mesmo a razão pela qual o costa-riquenho ainda não foi experimentado ali.