Último Passe 

2016-10-19
Jogar como grande e ganhar como pequeno

Há uns quinze anos, a propósito de uma equipa do Farense, escrevi um texto intitulado "Jogar como os grandes para ser como eles" que se destinava a enaltecer a ideia de jogo como fator determinante para a identidade de uma equipa. Essa tese continua atual, mas ver este Benfica de Rui Vitória jogar traz à discussão outro aspeto igualmente preponderante: a maior qualidade individual em zonas de definição de um jogo. Voltou a ser essa a chave da vitória em Kiev, onde o Benfica reafirmou a candidatura a um lugar nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões.
Esta constatação não vem diminuir o papel do treinador. O Benfica de Rui Vitória joga como um grande, sempre com largura, com busca da profundidade nos movimentos de ataque, redução de espaço quando lhe cabe defender (aqui com mais dificuldades, é certo), preocupação de construir com segurança desde trás e colocação de muita gente na frente. É uma equipa positiva. Às vezes até demasiado positiva, o que a leva a perder controlo dos jogos com alguma frequência, pela forma como não ocupa bem a zona central do campo, por exemplo. E é aqui que se separam detratores e defensores do futebol do Benfica. "Têm a sorte de os adversários falharem golos e mais golos e de aproveitarem muitas das ocasiões que criam", dizem os primeiros. É certo que voltarão a dizê-lo hoje sobre o 2-0 ao Dynamo Kiev. Mas ninguém tem sorte tantas vezes como este Benfica - o que devia levar-nos a verificar se ali não há algo mais. Porque há.
Claro que esta equipa não atingiu ainda o grau de maturidade que lhe permita ser indiscutível e conseguir ser igualmente eficaz perante os outros grandes, com quem perde mais do que ganha. É provável que não o atinja nunca. Mas desde que vá ganhando contra os que têm menor qualidade nunca os que lhe questionam os atributos terão grande acolhimento. Porque este Benfica joga como um grande mas faz de argumentos geralmente associados aos pequenos - como o desperdício alheio ou um elevado aproveitamento das chances que vai criando - uma arma. É também por isso que ganha.