Último Passe 

Crédito: FPF
2016-10-10
Pela reformulação do futebol europeu (parte I)

Afinal, a quem aproveita esta interrupção no calendário competitivo dos clubes europeus para que se joguem os desafios de qualificação para o Mundial de futebol? Quer a verdade? A ninguém. Perdem os clubes, perdem as seleções, perdem os adeptos e perdem os meios de comunicação, que também são parte importante na mobilização de gente para o espetáculo. Já devia ser razão mais que suficiente para que esta questão, a par do tema dos quadros competitivos do futebol no continente e no Mundo, fosse posta em causa de uma forma séria e sem tabus. Porque o Mundo mudou e a evolução não pode esperar nem estar presa a ideias feitas de acordo com a realidade de há décadas.
A instituição das datas FIFA já foi uma vitória, mas uma vitória de Pirro. Porque organiza as coisas, ainda que o faça no sentido contrário ao da sua evolução natural. Experimente por-se no lugar do treinador de um clube. Se tem bons jogadores, daqueles que vão às seleções, ficou sem meia equipa durante quase duas semanas, o que torna impossível os trabalhos de conjunto. Mais: quando eles regressarem, muitos de longas viagens intercontinentais e em vésperas do jogo que se segue, chegam "mortos" e em condições que não recomendam que os envolva nos compromissos do próximo fim-de-semana. 
É mau, não é? Ponha-se então no lugar de um selecionador nacional. Pode ser Fernando Santos. Chamou 23 jogadores para as partidas com a irrelevante equipa de Andorra e a mais complicada (mas nem por isso mais estimulante) seleção das Ilhas Faroé. Recebeu os jogadores em cima da data dos jogos, sem hipótese de trabalhar seja o que for em condições satisfatórias, e a sua maior dificuldade é motivar homens que fazem a sua vida na Liga dos Campeões e em exigentes Ligas nacionais para meterem o pé com o risco de se lesionarem contra amadores e em jogos onde não têm nada a ganhar mas muito a perder. Não parece nada fácil e acredite: não é aliciante.
Como se tudo isso ainda não bastasse, a interrupção não serve aos adeptos, que já ressacam a falta da emoção dos jogos dos clubes - ou, no caso dos que gostam e vivem a seleção, de jogos mais a sério da equipa nacional - nem aos órgãos de comunicação, que se vêem a braços com períodos vazios de interesse, nos quais por mais que se esforcem não lhes será possível manter o show em andamento nem cumprir a parte do orçamento que diz respeito às receitas. No fundo, estas interrupções, que todos temos como obrigatórias porque sempre as conhecemos assim, não satisfazem ninguém. E no entanto ninguém as põe em causa, porque estamos todos cheios de medo da evolução, do que aí vem no futuro do futebol mundial. Só que essa é a perspetiva errada. O futuro virá sempre. Escondê-lo, adiá-lo é só idiota, porque nos tira a possibilidade de o moldar da forma que melhor serve os interesses globais.
O que reserva o futuro? Reserva mais jogos de perfil elevado e, a não ser que eles nasçam dentro do sistema, acabará por motivar a cisão entre grandes e pequenos e até entre grandes clubes e seleções, no dia em que um Real Madrid ou um Barcelona tenham uma alternativa credível à Liga dos Campeões e por isso se recusem a aceitar libertar os Ronaldos ou os Messis para jogarem contra agentes de seguros ou especialistas na pesca do bacalhau. Reserva, por isso, uma Superliga europeia, porque os grandes clubes já sabem há muitos anos que é a jogar uns contra os outros que enchem os estádios e motivam as audiências televisivas. E reserva na mesma jogos de seleções, mas com uma lógica que não fuja ao resto do panorama competitivo que os jogadores enfrentam no resto das suas vidas. Porque a não ser para bater recordes, as passagens de um jogador como Ronaldo pelas atuais fases de qualificação de Europeus e Mundiais parece-se assustadoramente com uma perda de tempo, com sete jogos inúteis em cada dez.
Para enquadrar estas duas realidades é preciso pôr tudo em causa. Fá-lo-ei no artigo da próxima semana.