Último Passe 

2016-10-03
A política e os emprestados

Quando se perde, é normal que surjam as queixas. Quando se perde muitas vezes, como tem acontecido ao Nacional neste início de época, é ainda mais normal que as queixas se acumulem como ficheiros em lista de espera em cima de uma secretária. Manuel Machado, que viu a sua equipa perder mais vezes que as esperadas nas primeiras sete jornadas da Liga, passou a semana a queixar-se. Mas, ainda que as queixas tenham o seu quê de circunstancial e, pelo menos num caso, de desculpa de mau pagador, o veterano treinador não deixa de ter alguma razão.

Já se sabe que o futebol português se move de acordo com os estados de alma dos três grandes, mas nunca é demais lembrar que sem os outros não haveria Liga. E portanto é importante saber o que têm para dizer. Ora Machado começou por se queixar de um calendário que o forçou a receber o Benfica à terceira jornada e o FC Porto à sétima e que em breve o levará a medir forças com o Sporting. Qual é o problema? Nenhum, como é óbvio. A Liga joga-se em sistema de todos contra todos e este não é sequer um daqueles casos evidentes – que já se viu em épocas anteriores – de um “rolo compressor”, em que uma equipa jogava, por exemplo, com dois dos três grandes de seguida. Acha que nunca aconteceu? Pois engana-se. Em 1992/93, por exemplo, quase todas as equipas do campeonato defrontaram, de seguida, Sporting, Benfica, Boavista e FC Porto.

A questão é que isso só deixou de ser possível porque o grande que jogava primeiro se queixou, pois os rivais acabavam por beneficiar, por exemplo, de castigos provocados por expulsões nesses jogos. E aí, mesmo não tendo razão nenhuma na queixa que fez, Machado mete uma “lança em África” ao completá-la com a alusão a tantos condicionalismos que se fazem nos sorteios, sempre em benefício dos mesmos. Por que razão não hão-de os grandes jogar entre si a abrir os campeonatos? Há alguma razão que o justifique e que os mais pequenos não possam depois apresentar em sua defesa para fugirem a este tipo de confrontos de perfil mais elevado nas primeiras jornadas? Claro que não há, a não ser a proteção dos mais fortes.

Mais interessante, porém, é a temática em torno da segunda queixa de Machado. Então o FC Porto pôde jogar com dois jogadores emprestados pelo Atlético Madrid – Diogo Jota e Oliver Torres – e o Nacional não pôde fazer o mesmo com o jogador que tem emprestado pelo FC Porto? Dita assim, a coisa parece ser para rir. Vítor Garcia não pôde jogar por estar emprestado: ele não pôde jogar por estar emprestado pelo clube que o Nacional ia defrontar. Aliás, no mesmo jogo, o Nacional alinhou com César, que está emprestado pelo Benfica, e Tobias Figueiredo, emprestado pelo Sporting. No entanto, mesmo não tendo outra vez razão, Machado voltou a pôr o dedo numa ferida que está mal cicatrizada.

Sei que a Liga portuguesa proibiu os clubes de utilizarem os emprestados nos jogos contra o clube-mãe para evitar suspeições. Sei até que não é a única Liga mundial que o faz. Assim sendo, a utilização dos jogadores não fica dependente da boa vontade de quem empresta – e já se sabe que uns autorizavam e outros não – ou até da capacidade para influenciar decisões que cada clube grande vai tendo junto da sua “clientela”. E no entanto, esta é uma solução que nunca me convenceu. Porque afasta bons jogadores dos relvados, porque desvirtua a concorrência e porque se baseia na ideia de que os clubes não podem ser todos iguais, mesmo que participem todos no mesmo campeonato. Ora isso não é bom.

Será esta solução melhor que a anterior, na qual a utilização dos emprestados era deixada ao critério de cada um? Admito que sim, como admito o contrário. Depende das boas ou más intenções de cada um. Mas sei que a solução ideal passava, isso sim, pela limitação do total de jogadores que cada clube pode ter sob contrato e, depois, do total de jogadores que poderia emprestar. Uma equipa mais forte do ponto de vista financeiro – e já se sabe a influência que o dinheiro da Champions tem em campeonatos de países periféricos como o nosso – pode contratar sem limites e depois espalhar jogadores por vários clubes concorrentes, assegurando desde logo que está a defrontar equipas que nesses dias se apresentam inferiorizadas jornada após jornada. Ora se cada clube visse limitado o total de jogadores que podia contratar e emprestar isso viria automaticamente reduzir os efeitos deste atropelo às regras da concorrência. Se são bons, os jogadores que os grandes contratam e emprestam não iam deixar de ter emprego – teriam, isso sim, outros empregadores. Empregadores pelos quais poderiam lutar em todas as rondas da Liga. Ganhariam menos dinheiro? Talvez. Mas a essa questão – a da distribuição da receita, que continua a ser o maior entrave a um futebol português verdadeiramente competitivo – voltarei um dia.