Último Passe 

2016-09-19
Quem é que faz a diferença

Jorge Jesus já devia saber que quando faz aquele barulho, como que a espremer a língua entre os dentes para pontuar uma tirada bombástica, é porque não vem aí coisa boa. Quando resolveu concluir um debate acerca da melhor equipa ou do melhor plantel do campeonato com mais uma tirada de auto-elogio absolutamente desnecessária, dizendo que “quem faz a diferença é o treinador”, esqueceu-se que a realidade pode sempre encontrar formas de contrariar a teoria. Porque, sim, o
treinador faz diferença, mas não a faz só de uma maneira. E quem faz sempre a diferença, em todos os momentos, são os jogadores que esse treinador leva a jogo.
Jesus costuma fazer a diferença de várias formas. Faz a diferença a trabalhar a equipa ao longo da semana, criando comportamentos defensivos e movimentações ofensivas difíceis de contrariar. Por isso o seu Sporting cresceu até aos 86 pontos na Liga passada ou se superiorizou ao Real Madrid na quarta-feira, antes de um final de jogo que lhe foi fatal. Depois, faz a diferença no banco, com a pressão permanente sobre os jogadores exercida desde a linha lateral, fazendo crescer a concentração e baixar o total de erros. Faz ainda a diferença nas coisas que diz, aqui nem sempre uma diferença positiva, deixando no ar a dúvida acerca dos intuitos dessa comunicação: estratégia ou incontinência? E ontem, em Vila do Conde, fez ainda a diferença numa avaliação errada, tanto do estado em que se encontravam os seus jogadores depois do jogo intenso que tinham feito no Santiago Bernabéu como das armas do Rio Ave, que dinamitou de forma irreparável o flanco esquerdo leonino em 45 minutos. Porque desde os primeiros instantes do jogo se percebeu que Gil Dias ganhava sempre em velocidade ao improvisado lateral-esquerdo que é Bruno César, ainda por cima muito mal apoiado por Campbell, ou que André e Alan Ruiz não estavam a cumprir a tarefa de pressionar a saída de bola do adversário, permitindo ao Rio Ave um jogo fluído.
Nessa altura, quem fez a diferença foi Nuno Capucho, que percebeu o que ali estava e meteu naquele lado direito uma gazua capaz de abrir a defesa do Sporting e de chegar a um 3-0 de que os leões já não recuperaram. Mais ainda. Quem fez a diferença foi Gil Dias, porque os treinadores só fazem verdadeiramente a diferença no mais longo prazo e quem decide jogo a jogo são os futebolistas. É por isso que o debate que motivou toda esta polémica foi lançado em bases erradas. Tudo nasceu, recorde-se, numa pergunta feita a Jorge Jesus: “o Sporting tem o melhor plantel da Liga?” E se é verdade que o Sporting tem um plantel melhor do que tinha na época passada, ao nível do grupo do Benfica na profundidade das opções à disposição do treinador, também é certo que os leões têm neste momento pior onze do que tinham na Liga anterior. Jesus, que respondeu dizendo que uma equipa orientada por ele será sempre a melhor, porque “quem faz a diferença é o treinador”, esqueceu-se que muitos dos jogadores que ia levar a jogo em Vila do Conde ainda não estavam familiarizados com o processo de jogo que ele trabalha e que, no médio e longo prazo, sim, pode fazer mesmo a diferença. Mas para já não fazem, porque se Gelson ainda disfarça a saída de João Mário, ninguém está à altura do rendimento de Slimani e não há quem dê à equipa o que lhe dá Bryan Ruiz (ontem suplente) na esquerda do ataque.
A explicar o banho de humildade a Jesus esteve a rotação na equipa, com a saída de quatro titulares de Madrid, numa inversão da lógica que presidiu à época passada, na qual os leões guardavam as melhores opções para a Liga portuguesa e andavam pela Liga Europa com segundas escolhas. Ainda por cima segundas escolhas bem mais fracas do que as de agora – daí a chapa três na Albânia, frente ao Skenderbeu, por exemplo. Mas esteve também o facto de os jogadores ontem utilizados na frente, que é onde está a base de qualquer equipa de Jesus, ainda não terem tempo suficiente de trabalho para compreenderem como hão-de fazer a diferença naquela organização. É por isso que este Sporting tem melhor plantel do que em 2015/16, mas ainda tem pior equipa. Se vai chegar ao nível exibido na época passada ou não, isso sim, já dependerá da capacidade do treinador. Sendo que o direito ao erro ficou ontem mais reduzido.