Último Passe 

2016-09-12
O mercado, esse nivelador

O mercado de transferências no futebol europeu não tem a função niveladora do “draft” nos desportos norte-americanos, mas a forma como está estruturado acaba por abalar as certezas que muitos tinham a 31 de Agosto e deixaram de ter a 1 de Setembro. O primeiro jogo do Sporting sem Slimani veio confirmar a ideia de que Jorge Jesus vai ter trabalho a sério para devolver à equipa o futebol que esta praticava com o argelino. E se o facto de ter mantido o onze até às vésperas de encerramento do mercado conferia ao Sporting alguma vantagem face aos seus mais diretos competidores, a saída de João Mário e, sobretudo, do avançado argelino vem atrasar a vida aos leões e deixar toda a gente na mesma situação: a de ter de construir tudo de novo.
Aqui, do que se fala não é da qualidade dos jogadores. Não é se Rafa é melhor que Gaitán, se Bas Dost tem mais qualidade que Slimani ou se Oliver pode fazer esquecer Brahimi. Nada disso. Aqui fala-se da qualidade dos coletivos, daquilo que cada jogador dá à equipa e daquilo que a equipa pode fazer quando o perde. A maior vantagem do Sporting na luta pelo título era não ter mudado quase nada. De repente, sem Slimani, vê-se forçado, não a mudar, mas a reconstruir a casa a partir dos alicerces – porque ao contrário do que sucede com a maior parte dos treinadores, Jesus constrói as suas equipas a partir da frente. Daí que o primeiro jogo do Sporting sem Slimani não tenha sido brilhante nem sequer uma simples aproximação ao que a equipa já tinha produzido esta época ou, sobretudo, na anterior. No fim dos 3-0 ao Moreirense, Jesus explicou: “O Bas Dost jogou de acordo com a ideia dele e não com a ideia da equipa”. E nem podia ser de outra forma, tão
poucas vezes o ponta-de-lança holandês treinou com a equipa.
Qual foi a ideia de Bas Dost? Jogou à ponta-de-lança de equipa grande, baixando por vezes para o espaço entre-linhas, em desmarcações de apoio, mas procurando estar sempre no centro da área, para a finalização. Acontece que essa não é a ideia de Jesus, que quer que o seu homem mais avançado procure as laterais, em movimentos coordenados com os alas, que ao mesmo tempo preenchem o espaço interior, e sobretudo que ele alargue o espaço à frente da defesa adversária através da busca da profundidade, com desmarcações para o espaço entre a última linha defensiva e a baliza. Era em Slimani que começavam a surgir os espaços para as diagonais de Gelson ou Bryan Ruiz, as oportunidades de remate de Teo Gutièrrez ou as bolas à frente de Adrien Silva. No fim, não se tratará tanto de saber se Bas Dost conseguirá fazer tantos golos como Slimani – ele parece ser até melhor finalizador que o argelino. Trata-se de saber se cria tantas condições
como ele para que os colegas possam criar desequilíbrios. Talvez lá chegue, mas para isso precisa de tempo para compreender aquilo a que Jesus chamou “a ideia da equipa”.
Rafa, que durante algum tempo achei que, face à proliferação de extremos no plantel do Benfica, podia ser alternativa a Jonas no centro do ataque, teve uma entrada bastante mais impositiva no onze de Rui Vitória. Não fez golos na vitória em Arouca, mas a sua entrada num onze de emergência fez mexer muito mais o futebol do Benfica que a de Dost veio influenciar o jogo do Sporting. Porque a criação de desequilíbrios promovida por Rafa é muito mais resultante de variantes
individuais: tem a ver com a sua tomada de decisão, com a velocidade, o pique, com as trajetórias que escolhe por instinto e que dependem menos de variáveis coletivas. Visto o jogo de Arouca, e tendo em conta mais uma noite tão infeliz do ex-bracarense na finalização como influente na criação, fiquei convencido de que ele terá o lugar na esquerda do ataque à disposição assim que Jonas voltar da lesão que o apoquenta. E num momento em que ainda não acabou de habituar a equipa a superar a falta que lhe faz a capacidade de Renato Sanches para queimar linhas em posse, Rui Vitória terá de começar a trabalhar na coordenação dos dois, porque o jogo de Rafa é diferente do de Gaitán: menos cerebral, menos técnico, mais repentista, mais veloz.
No mesmo fim-de-semana em que Benfica e Sporting estrearam Rafa e Bas Dost, o FC Porto apresentou um novo sistema de jogo, um 4x4x2 que lhe dá mais presença na frente. Pode ser uma mudança histórica para uma equipa que há anos navega na dinâmica de um 4x3x3 em nome do qual tem sempre construído os seus plantéis. Uma carga de trabalhos também para Nuno Espírito Santo. Com uma diferença: é que o FC Porto era, dos três, o que mais precisava de mudar, tão débil era a herança deixada por Lopetegui e Peseiro. Até aí, o mercado foi nivelador.