Último Passe 

2016-09-08
A formação e as constantes de Vieira

Há duas constantes nas entrevistas de Luís Filipe Vieira. Uma é a comparação com o que era o Benfica antes de ele e Manuel Vilarinho lá chegarem – e essa chega para que o presidente saia a vencer de goleada, porque a recuperação está à vista de todos e não pode ser negada. Outra são as promessas irreais, que nunca cheguei a perceber se são feitas fruto do entusiasmo e de uma crença que depois os actos acabam por contrariar ou se são mesmo programadas para afastar a conversa de áreas mais sensíveis.

Na entrevista que deu à TVI – que não pude ver em direto porque estava a viajar de Basileia para Lisboa – Vieira voltou a referir muitas vezes o que mudou no Benfica nesta década e meia. Desde as taças que desapareciam ao estado caótico em que Vale e Azevedo deixou o clube, tudo serve para caucionar uma liderança que voltou a fazer do Benfica um clube ganhador e financeiramente estável – a questão da dívida que aumenta é outra. Só por isso, nenhum benfiquista pode deixar de agradecer a Vieira e Vilarinho o terem-se disponibilizado a abraçar a tarefa de tomar conta do clube. Mas isso, francamente, já foi conversa para outras entrevistas e ao longo de muitos anos. Neste momento, muito mais interessante é falar do futuro, dos desafios que se colocam ao clube e da relação de parceria que este mantém com Jorge Mendes, não no sentido de a assumir mas sim de a clarificar em termos que todos a entendam.

Vieira, é bom que se dia, não se negou a falar do futuro. E fê-lo com entusiasmo, não só afirmando que neste momento tem um Plano B para tudo – treinador ou jogadores que venham a sair – como indo ao ponto de dizer que após o que gastou neste defeso, “nos próximos três ou quatro anos” o clube “pouco ou nada terá de investir” no mercado, ou que vai ter uma equipa quase toda fornada por "jogadores feitos no Seixal”. E é aqui que me apetece dizer como a menina do anúncio dos iogurtes: “nisso eu não acredito”. E não acredito por duas razões. Primeiro, porque me parece difícil manter a tal parceria com Jorge Mendes apenas num sentido – quando falham as hipóteses de saída, é preciso alimentá-la também com entradas, mesmo que sejam excessivamente inflacionadas, como foram as de Pizzi, Jiménez ou Rafa, por exemplo. Aliás, serão sempre inflacionadas, mesmo que Mendes consiga depois servir-se da sua influência para os vender por mais dinheiro ainda.

Depois, também não acredito porque, mesmo admitindo que seria possível ganhar em Portugal com a aposta na formação – e já isso acho muito complicado, como se vê pela última década do Sporting – o mais difícil será sempre manter os jogadores excecionais por tempo suficiente para fazer uma equipa consolidadamente ganhadora. É que os Renatos Sanches, quando aparecem, são extraordinariamente difíceis de segurar. E os outros, só por si, sem os que fazem a diferença, não ganham campeonatos. O Barcelona pode ter uma equipa baseada na formação porque os Xavis e os Iniestas não querem sair dali para lado nenhum. O Benfica ou o Sporting até podem formar a “espinha dorsal da seleção nacional” – promessa antiga de Vieira, agora recauchutada – mas dificilmente a manterão por tempo suficiente para ganhar de forma repetida. Acreditar nisso equivale a acreditar que é Jesus o culpado por o Benfica ter usado poucos jogadores da formação. Como se acima dele não estivesse uma estrutura que lhe dava os Di Marias, os Gaitáns, os Matic, os Enzos Perez ou os Rodrigos, os Garays e os Ramires.