Último Passe 

2016-09-01
Contas de mercado num oásis da economia

O futebol continua a ser um oásis na economia portuguesa. Mais nenhuma área consegue aquilo que os maiores clubes nacionais voltaram a alcançar neste defeso: fechar as contas com amplo saldo positivo e acabar com a equipa bem mais forte do que há um ano. Crise, se existe, nestes casos, é de abundância, fazendo crer que os grandes estão a preparar-se para um campeonato ainda mais disputado, mesmo que mais longe do resto do pelotão da prova.

O Benfica faturou bastante com as vendas de Renato Sanches e Gaitán, tornando quase irrelevante a saída de Carcela. Os quase 70 milhões que o clube recebeu chegaram e sobraram para recompor o plantel com opções do agrado de Rui Vitória e ainda para adquirir o passe de Mitroglou, que estava na Luz por empréstimo, ou completar a compra de Jiménez, que cortou as amarras ao Atlético Madrid. Rafa, Cervi, Carrillo e Zivkovic bater-se-ão pelo lugar do argentino, ao passo que Danilo, Horta e Celis por lá estarão à espera de ocupar a vaga de Renato, pela qual também concorre o grego Samaris, que acabou por ficar no clube. Claro que nunca será igual, mas o próprio Rui Vitória se negou a entrar na lógica da substituição por clones, pelo que agora lhe restará a tarefa de gerir a abundância, que é mais evidente nas alas do ataque, já que o clube não conseguiu desfazer-se de todos os jogadores que queria colocar até ao fecho do mercado.
Mesmo dando de barato que Rafa até pode jogar ao meio e concorrer com Jonas pelo lugar atrás do avançado de referência (e os 16 milhões que os encarnados bateram por ele fazem pensar em mais do que isso), há ali muita gente a esforçar-se por garantir um lugar nas alas do ataque. Se as vagas são duas, por elas se batem Salvio, Pizzi, Carrillo, Zivkovic, Cervi e Gonçalo Guedes. É muito? Nada de estranho no outro lado da segunda circular, por exemplo. Porque apesar de se ter também regalado com 70 milhões de euros por João Mário e Slimani - e o valor de Naldo também aparece aqui como um acrescento quase irrelevante - o Sporting só precisou de gastar pouco mais de um terço desse montante para reforçar o grupo de forma evidente. Se há um ano Jesus só tinha Slimani para jogar na frente (Barcos nunca contou), já lá tem Dost e André, enquanto espera pela recuperação de Spalvis. Se face à saída de Montero, Teo Gutierrez era também opção quase única para ser segundo avançado, obrigando Jesus a desviar para ali Bryan Ruiz em alguns jogos, agora já lá tem Castaignos e Alan Ruiz. E nas alas, as opções são inúmeras: para dois lugares, há Gelson, Campbell, Markovic, Bruno César e Bryan Ruiz. Tudo somado à existência de duas ou três opções para cada lugar a meio-campo, onde Adrien e William ficam, mas entram Elias ou Melli, leva a que este seja um plantel sem desculpa na falta de profundidade para desistir de nenhuma prova. Nacional ou europeia.
O FC Porto foi, dos três, quem menos mexeu no mercado e o único a fechar com saldo negativo entre compras e vendas. As três épocas de insucesso impediram o clube de fazer grandes operações. Martins-Indi, Aboubakar, Bueno ou Reyes saíram apenas por empréstimo, Brahimi por lá continua, o que terá impedido os dragões de atacarem com certeza maior alvos que pretenderiam, como Mangala. As aquisições de Depoitre, Felipe, Alex Telles e Boly, bem como a compra do passe de Layun, o regresso de Otávio e as chegadas, por empréstimo, de Oliver e Jota, implicam, ainda assim, um investimento demasiado elevado para se afastar os dragões na corrida ao título. Até por ter mudado ideia de jogo e de equipa técnica, o FC Porto parece ligeiramente atrás dos rivais de Lisboa na bolsa de favoritismo da Liga, mas seria um erro afastar Nuno Espírito Santo do lote de treinadores candidatos ao título.