Último Passe 

2015-08-29
De Lopetegui a Vitória no plano das ideias

Julen Lopetegui dizia há dias que não é por se ter muitos avançados em campo que se ataca melhor. É claro que tem razão. O fundamental é ter uma disposição em campo coerente com a ideia de jogo que se defende. E é esta reflexão que me merecem as vitórias caseiras do FC Porto (2-0 ao Estoril) e Benfica (3-2 ao Moreirense).
Por alguma razão o Benfica fez todos os sete golos da época nos últimos 20 minutos dos seus jogos, quando já tem toda a artilharia na grande área adversária. É que se não passam a atacar melhor, com Mitroglou, Jonas e Jiménez os encarnados têm pelo menos mais hipóteses de transformar em golo o recurso ofensivo que mais têm apresentado: circulação de bola (mesmo que seja lenta e previsível) e cruzamento para a área ou remate de meia distância na sequência de uma segunda bola dele originada.
O Benfica virou o jogo e não foi por ter passado a atacar ou a jogar mais quando Vitória meteu mais atacantes em campo. O bicampeão voltou a fazer um jogo fraco, com dificuldades na construção ou nas mudanças de velocidade. Atacou muito, mas não é por ter chegado ao intervalo com 71 por cento de posse de bola que pode dar-se por satisfeito com a produção nesse período. Vitória reconheceu-o no final. E é bom que aproveite esta interrupção de duas semanas na Liga para consolidar ideias, de forma a ser capaz de mostrar mais futebol contra o Belenenses.
Vitória tem repetido que sabe qual é o caminho e não é por lhe fazer por vezes algumas inversões de marcha que precisa de o abandonar. Já o FC Porto suscitou outro tipo de dúvidas. A equipa de Lopetegui ganhou com mais facilidade ao Estoril, por 2-0, até com um golo cedo (logo aos 6', por Aboubakar), na tarde em que o basco cedeu aos que vêm pedindo Brahimi a 10. O argelino entrou em campo em simultâneo com Tello e Varela, mas ao mesmo tempo Lopetegui usou um lateral esquerdo que sabia conter-se mais que o habitual (Indi tem rotinas de central e não a desenvoltura de Alex Sandro) e aprisionou os outros médios: Danilo e Imbula jogaram a par, muito longe da área (e, claro, de Brahimi).
O resultado destas ideias de sentido contrário foi uma atuação bipolar. Por um lado, Brahimi mostrou que pode ser um excelente segundo avançado: o modo como abre a linha de defesa do Estoril para o primeiro golo é um exemplo disso. Por outro, a equipa ficou com linhas muito afastadas e deixou os médios à mercê do trio de meio-campo do Estoril. E nem todas as trocas que o treinador foi fazendo (Varela por André antes do intervalo; Imbula por Herrera logo a começar a segunda parte) mudaram um panorama a que só o livre exemplar de Maicon para o 2-0 veio pôr cobro. Se o que quer é trocar (ou até alternar) o seu 4x3x3 dos três dínamos a meio por um 4x2x3x1 de inspiração espanhola, Lopetegui também precisa de deixar ideias bem claras na cabeça dos seus jogadores. Tal como Vitória, tem é de ser o primeiro a mostrar que crê nelas, para que os jogadores também nele acreditem.