Último Passe 

Crédito: FPF
2016-07-11
Um campeão contra todas as probabilidades

E agora, para algo completamente diferente... Portugal ganhou o campeonato da Europa, vencendo a França, a quem não ganhava há 41 anos, em Paris, onde nunca uma equipa portuguesa tinha ganho um jogo de competição, sem Cristiano Ronaldo em 95 dos 120 minutos, por lesão prematura, e com um golo de Éder num remate do meio da rua. Quais eram as probabilidades de isto acontecer? Mínimas. Mas a vitória, conseguida no prolongamento, depois de duas grandes mudanças no xadrez tático e no seguimento de um jogo em que a capacidade de sofrimento foi o argumento principal para contrariar um adversário sempre mais perigoso do ponto de vista ofensivo e mais possante nas manobras pelo meio do campo, acaba por premiar uma equipa que foi isso mesmo: uma equipa, um coletivo indestrutível e inexpugnável. Portugal não ganhou muitos jogos – nos 90 minutos, aliás, só ganhou um – mas não perdeu nenhum em dois anos de competição. E fê-lo utilizando sempre toda a profundidade do seu plantel, acabando por fazer de uma maior frescura física na final uma arma fundamental para melhor controlar a França.

O jogo começou muito difícil para Portugal. Fernando Santos manteve o 4x1x3x2, mas o 4x2x3x1 da França deixava os médios portugueses com falta de referências para o seu habitual jogo de encaixe. William tentava preencher a área à frente dos centrais, onde caía preferencialmente Griezmann, mas depois com Renato Sanches e João Mário abertos nas alas, Adrien sofria face a Pogba e Matuidi. O médio português tentava subir em pressão, mas os seus esforços eram regra geral infrutíferos, pois mesmo que encostasse em alguém acabava atropelado pela maior pujança dos opositores. Giroud, cujo futebol dependia sempre mais dos cruzamentos, estava controlado por dois centrais intratáveis no jogo aéreo, mas a França era capaz de lançar vaga sobre vaga de ataque fruto das arrancadas dos homens que chegavam das linhas atrasadas. O primeiro remate até foi português, quando Cédric descobriu uma diagonal de Nani e este lhe deu depois de controlar no peito, mas depois a França tomou conta do campo e bem podia ter chegado ao golo. Uma recuperação alta permitiu a Griezmann chutar à rede lateral de boa posição (aos 7’) e, pouco depois (aos 10’) foi Rui Patrício que, com uma defesa magistral, impediu o Bota de Ouro da competição de marcar de cabeça.

Até que se deu o golpe de teatro. Magoado numa entrada de Payet, Ronaldo teve mesmo de sair do campo aos 25’, depois de ter tentado o regresso com um joelho ligado. Fernando Santos chamou Quaresma, mas a equipa não piorou, sobretudo porque o treinador a reorganizou, trocando o 4x1x3x2 por um 4x3x3 que permitia a Portugal encaixar no meio-campo francês. Com Renato mais por dentro, a manter Matuidi em sentido, Adrien passava a ter de ocupar-se “apenas” de Pogba. E o problema aí passaram a ser as movimentações de Sissoko, um monstro de disponibilidade física, que ganhava todos os duelos que disputava. Foi Sissoko, aliás, quem voltou a estar perto do golo, quando aos 34’ se livrou de Adrien e chutou para mais uma excelente defesa de Rui Patrício, neste período o garante do zero na baliza de Portugal. A partir deste momento, porém, com o encaixe tático, a França já só ameaçava em movimentos individuais, fossem eles de Pogba, Sissoko ou Coman, que entrara para o lugar de Payet com o intuito de alargar o campo e forçar o um para um com Cédric. E apesar de Griezmann ter voltado a perder uma ocasião clara, cabeceando ao lado após centro de Coman, Portugal parecia agora mais confortável no jogo.

E mais confortável foi ficando com as trocas de Adrien, esgotado, por Moutinho, e sobretudo com a saída de Renato por Éder, dando mais coerência ao 4x3x3 da seleção. Nani, que estava no centro do ataque, muitas vezes a ser alvo de impossíveis bolas aéreas, passou para a direita, deixando a Éder a missão de jogar de costas para a baliza; Quaresma mudou para a esquerda e João Mário baixou para o meio-campo, onde rende muito mais do que como extremo. E assim que chegou ao flanco direito, Nani mostrou o que podia fazer: cruzamento-remate para grande defesa de Lloris, que deteve também a recarga acrobática de Quaresma (aos 80’). A França já tinha então trocado de ponta-de-lança, inserindo em campo Gignac, que pelo jogo de pés e pela forma como defende a bola com o corpo, era muito mais difícil de controlar que Giroud. E GIgnac esteve mesmo à beira de sentenciar a final, já em período de descontos: trabalhou bem sobre Pepe e, na cara de Patrício, chutou ao poste. Aqui, foi a sorte a proteger Portugal e a levar o jogo para um prolongamento onde, no entanto, a equipa nacional já foi melhor, mostrando que a profundidade do plantel é muito importante numa competição-relâmpago como esta: não só Portugal utilizou mais jogadores (só não jogaram os dois guarda-redes suplentes), como mudou cinco titulares da abertura para o encerramento (contra apenas dois da França) e até teve onze dias para fazer os últimos três jogos, enquanto a França desenhou o calendário para os fazer em oito dias.

Com Ronaldo empenhadíssimo na motivação dos companheiros antes do prolongamento, a equipa portuguesa entrou melhor nesta fase do jogo, muito fruto da capacidade de luta e de ganhar faltas mostrada por Éder. Didier Deschamps ainda não tinha feito a última substituição quando Raphael Guerreiro acertou na barra num livre direto (aos 108’) que deixara Lloris completamente batido. E já se preparava para colocar em campo Kanté, um médio de contenção, quando Éder inventou o golo da vitória: saiu da esquerda para o meio, foi ganhando espaço e acertou um pontapé forte do meio da rua que fez a bola entrar no canto inferior da baliza francesa. Com onze minutos para jogar, Portugal colocava-se em vantagem. Até final, a ideia foi resistir e vinha bem sonora do banco, onde Ronaldo estava híper-ativo, saindo frequentemente da área técnica e mais parecendo um treinador pela forma como ia gritando para dentro do campo. Deschamps emendou a substituição e fez entrar Martial, mais um homem de ataque, mas a França já não voltou a conseguir criar as situações de perigo que tivera no tempo regulamentar. E no fim foi Ronaldo quem ergueu a taça, lançando a festa em Portugal e em todo o local onde há portugueses.